SILK ROAD TRIP #15 – Very special meetings in Istanbul

turkey

 

ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

ENCONTROS MUITO ESPECIAIS EM ISTAMBUL

21-22.06.2014, 17º e 18º dia de viagem

Depois de vários dias na estrada, viemos para Istambul sobretudo para descansar e recarregar baterias em casa de Hasan e Matina, um turco e uma grega muito simpáticos amigos de Claire que vivem mesmo no centro da megalópole turca. Que sorte que tivemos, não só pela localização mas pelo acolhimento de gente boa e divertida que nos fizeram sentir em casa o tempo todo. Matina estava muito ocupada a acabar a edição do vídeo-clip para uma nova música-pop de merda (enfim, é com estes contratos que pagam as contas) de uma cantora turca (os 2 são jovens realizadores ambiciosos, que ainda há pouco receberam o seu primeiro prémio), de modos que não pôde gastar o tempo que desejava connosco. Ainda assim foram belos os momentos passados juntos, ah e maravilhosa a refeição tradicional que nos ofereceram na última noite em Istambul!🙂

Vídeo-clip pelo qual Hasan e Matina ganharam o prémio de melhor edição (a música é estúpida, sim, mesmo!):

O outro grande objectivo da estadia em Istambul era encontrármo-nos com Osama, amigo de Claire, um jovem sírio muito simpático quem 2010 a ajudara imenso e a acolhera na casa da sua família. Com o ataque dos EUA e aliados à Síria disfarçado de guerra civil, Osama teve de se juntar ao Exército Sírio para defender o país da agressão estrangeira, pese embora em tempos de paz fosse crítico do governo de Assad. Eis portanto um homem sensato e pragmático, que entende que primeiro há que defender o país, depois sim pode regressar às críticas ao governo de Assad e quiçá apoiar uma mudança de regime numa Síria estável, independente e livre de ingerências estrangeiras. Estivemos com Osama na primeira tarde em Istambul (2º dia) onde passeámos pela zona central de Taksim e bebemos uns chás. Para o terceiro dia combinámos uma viagem de barco até à Ilha de Kinaliada no Mar de Marmara. Antes de apanhar o barco tínhamos de nos encontrar perto de uma estação de metro da cidade, tarefa quase impossível numa caótica megalópole de 17 milhões de pessoas. Precisávamos de ajuda e obtêmo-la com muita facilidade. Na rua junto à estação de metro perguntámos à primeira pessoa que encontrámos se nos poderia emprestar o telemóvel para telefonar a Osama. Irakli, um businessman da Geórgia, muito simpático, pegou-nos pelo braço e foi nos levar a um ciber-café onde telefonámos gratuitamente e onde ele comprou um cartão novo SIM para si. Depois de entrármos em contacto com Osama, Irakli convidou-nos a segui-lo até um restaurante muito chique onde nos quis pagar uma refeição a cada, as quais recusámos. Ficámos apenas pelos cafés turcos. Do seu telemóvel com o novo cartão SIM telefonámos de novo a Osama para dar as novas coordenadas do encontro. Pouco tempo depois Osama apareceu e juntou-se a nós nos cafés turcos bebidos por entre conversas de futebol… ficámos a saber que Irakli adorava e sabia o nome completo de Eusébio da Silva Ferreira!

Luís, Claire & Irakli, o senhor geórgio
Luís, Claire & Irakli, o senhor geórgio

Após nos despedirmos de Irakli, fomos os três então apanhar o ferry-boat para a tal Ilha de Kinaliada onde passámos a maior parte do dia, comendo, tomando banhos naquele mar belo e de água tépida (ensinámos Osama a nadar e boiar), passeando e, claro, conversando sobre a sua terrível experiência na Síria. Uma tarde interessante bem passada ao som de músicas de Fairuz, uma magnífica cantora libanesa, a partir do telemóvel de Osama:

Aqui fica o resumo das conversas com Osama nestes 2 dias sobre a Síria:

  • Enquanto ex-combatente do Exército da República da Síria na Turquia Osama é um alvo a abater aqui, e também alvo fácil de exploração e escravização. O Exército da Turquia, fiel cão de guarda do império militar dos EUA, tem sido um dos principais actores na desestabilização da Síria, oferecendo treino e armas aos falsos rebeldes sírios (que nem sírios são), facilitando a sua entrada na Síria e acolhendo os terroristas feridos (os media ocidentais chamam-lhes de “rebeldes” e de “freedom fighters”, enfim) em solo turco. Como é de adivinhar, alguém como Osama, não é bem vindo na Turquia, nem ele gosta de aqui estar, ao ponto de não ter coragem para aprender turco além do básico para sobreviver ao dia-a-dia. Osama tem um medo terrível de ser apanhado (está ilegal aqui, pois claro) e de vir a servir de moeda de troca do governo turco de forma que este possa recuperar soldados e espiões turcos (aí está, estrangeiros e não sírios) que andaram a combater pelos interesses dos EUA na Síria e que agora se encontram em prisões sírias. Osama não pode voltar à Síria pois desertou ao exército sírio e agora é um traidor da pátria. Deste tema (da deserção) falarei mais tarde. Dadas as circunstâncias, ilegal e mal-vindo, Osama não tem outro remédio senão submeter-se a trabalhos de escravo (18 horas de trabalho por dia) e ser mal-pago, por vezes roubado, não recebendo sequer o salário, Sim, é um inferno a vida dele aqui.
  • Osama tentou entrar ilegalmente em território da UE, pela Grécia, mas correu mal, muito mal. Como sabemos há sempre lixo-humano para se aproveitar da miséria humana e Osama foi vítima de um desses dejectos-humanos que lhe tomou 1500 euros (uma fortuna, é preciso passar fome para poupar este dinheiro nas condições em que Osama se encontra) para o fazer entrar na Grécia, e nunca mais apareceu… enfim, lixo-humanos, sim lixo-humano…
  • Para nosso enorme choque, Osama confessou-nos que éramos as primeiras pessoas em muitos meses com quem pôde falar livremente e descarregar tudo o que lhe ia na mente. Mas não é facto assim tão espantoso, dado o que escrevi acima.
  • Osama fugiu da Síria e desertou por 3 motivos principais, primeiro pelo medo de poder eventualmente matar o seu próprio irmão, algo insuportável para ele (não admira)! Depois porque, num acto rotineiro dos terroristas internacionais que os media vergonhosamente apelidam de “rebeldes”, a localização da sua família foi descoberta por esses monstros-mercenários e a partir desse momento Osama passou a receber de forma constante ameaças de morte para toda a sua família, por parte dos “rebeldes”, caso não deixasse o Exército Sírio. Em terceiro o lugar, a fatiga de um homem comum perante a obrigação de ver e ouvir todos os dias os horrores e monstruosidades perpetradas pelos “rebeldes” ao seu povo e ao seu belíssimo país agora em ruínas.
  • Osama passou a ter receio de poder vir a matar o próprio o irmão porque os mercenários internacionais (rebeldes blábláblá) raptaram o seu irmão e obrigaram-no a combater por eles. Para quem anda desatento e se deixa levar pela vergonhosa lavagem cerebral dos media portugueses, ovelhas fiéis e domesticadas do imperialismo norte-americano, pode soar absurdo o que aqui digo. Para quem tem seguido de perto o que de facto se tem passado na Síria nos últimos anos, não é nada de novo, apenas um relato, mais um exemplo concreto da “verdadeira” realidade desta agressão disfarçada de guerra civil. Quem anda atento sabe e Osama confirma que a quase totalidade dos “rebeldes sírios” não são sírios, e que a minoria síria dentro dos “rebeldes sírios” foram quase todos lá parar da mesma forma que o irmão de Osama! Quanto aos mercenários estrangeiros, Osama confirmou-me o que já sabia, que a maioria são do Paquistão, Afeganistão e de países do Médio-Oriente, mas assegura que encontrou imensos franceses e também uns quantos de quase todas as nacionalidades europeias. Ah, e muitos tchetchenos, não admira.
  • Osama fartou-se dos horrores da guerra, quem não se fartaria, e claro que, enquanto civil normal, não estava nem nunca estaria preparado para presenciar as monstruosidades perpetradas pelos mercenários internacionais extremamente bem treinados na arte do horror. Osama encontrava, relatou ele, com muita frequência, corpos morto com marcas de torturas, ou restos de corpos, ou corpos sem mãos, ou cabeças separadas dos corpos de amigos e pessoas conhecidas. E quanto aos desconhecidos, o mesmo problema, ver corpos que explodiram com gasolina injectada nas veias de civis e militares raptados, obra dos “freedom fighter”! Quem pode suportar tais visões? Ah, uma lista imensa de horrores difíceis de acreditar e que prefiro não continuar a descrever…
  • Não admira que este gentil homem que acolheu a Claire em sua casa em 2010, tratando estrangeiros como reis e rainhas (eu tive a mesma maravilhosa experiência na Síria em 2008), admita agora com vergonha que após tanto horror, passou deveras a ter ganas de matar, torturar e fazer sofrer fisicamente o mais possível esses lixos-humanos que trouxeram o inferno para a sua amada pátria… Eu acredito que sim….
  • Ainda assim Osama relatou-nos coisas boas também, como a aprendizagem de sobrevivência em condições extremas. Hoje ri-se de quando recusou tomar banho de água fria em pleno inverno, a nevar, pois agora sabe por experiência própria que tomar um banho frio e vestir depois roupas quentes e secas é a melhor forma de activar a circulação sanguínea e forçar o metabolismo a produzir calor. Recorda com nostalgia as muitas vezes que deixou de comer (e os seus colegas também) as rações de combate largadas de helicóptero pela Força Aérea Síria, para as oferecer às populações famintas, sem acesso nenhum a comida. Relatou-nos com sorrisos amargos as vezes em que por erro as rações lançadas de para-quedas caíram em território dos “rebeldes”, vendo-se por essa e outras razões obrigado a comer as poucas ervas secas que crescem no solo sírio, para enganar a forme.
  • Osama, desiludido com a humanidade, confessa não entender como ser humanos (“rebeldes” neste caso) podem colocar uma mulher fingindo de ferida no chão, servindo de isco para raptar ou matar soldados sírios! Ou bem pior, Osama criticou ultrajado o acto sujíssimo dos “rebeldes” de mandar ambulâncias atravessar zonas civis ou de militares sírios, garantido (mentira) que dentro seguiria uma mulher a dar-à-luz, para depois fazer explodir a ambulância-bomba provocando grande quantidade de feridos e mortos. Garantiu-nos que ocorreram muitas vezes situações similares até que por fim, os alto-comandos das Forças Armadas Sírias, passaram a interditar quaisquer entradas de pessoas e veículos ou até animais dentro de território controlado pelo governo legítimo. Sim animais também. Osama, que adora animais e que teve como melhor amigo durante parte dos 2 anos e 7 meses de guerra um cão que encontrou na rua, viu-se obrigado por ordens superiores a abandoná-lo, devido ao enorme perigo que representava aquele cão para as tropas sírias. Porquê? Simples, os “rebeldes” lembraram-se de passar de carros-bomba para cães-bomba e mesmo burros-bomba, inserindo as ditas bombas nos estômagos dos animais! Quanto ao seu cão, meses depois de ter sido forçado a abandoná-lo, num incrível golpe de sorte, voltou a encontrá-lo noutro local, magro, ferido e sem forças, mas feliz por reencontrar o seu amigo humano!
  • Embora a Rússia negue oficialmente o que sabemos, devido à necessidade de ser politicamente correcta, é um facto que forças militares russas e equipamento ultra-moderno russo se encontram na Síria, apoiando o exército nacional. Osama confirma-o e afirma que sem esta ajuda não teria sido possível realizar o “milagre” de reconquistar a quase totalidade do território do país, facto que o deixa muito feliz e descansado pela família que não vê há mais de 3 anos. Quanto ao seu irmão, conseguiu fugir dos “rebeldes” e agora encontra-se são e salvo, junto do resto da família, numa zona controlada pelo Exército Sírio. Aqui está, o seu irmão, sírio ex-combatente pelos “rebeldes”, não foi preso ou morto pelo exército sírio por ter traído a pátria, não, pois claro, é antes tratado e bem como vítima que foi de rapto perpetrado pelos mercenário terroristas internacionais. Uma boa prova de quem é quem neste conflito, de quem maltrata ou  trata bem os civis (e Assad aqui marca pontos!). Até a TV portuguesa quis nos fazer crer que Assad teria usado armas químicas contra o seu próprio povo em Ghoutta, apenas porque o palhaço-otário-marioneta do tal Barack Obush assim o disse. No entanto nunca se deram ao trabalho de transmitir as fotos e vídeos dos serviços de espionagem russos que mostraram, para quem quis ver, as preparações e o momento em que um grupo terrorista “rebelde” lançou armas químicas contra outro grupo “rebelde”. Quanto às comoventes imagens na TV portuguesa de crianças mortas supostamente pelas armas químicas de Assad, eram procuradas há meses pelos seus parentes, inclusive a televisão síria passou várias vezes as suas fotos nas informações sobre pessoas desaparecidas. Mais, eram todos alunos da mesma escola, pertencentes à minoria Alauíta da qual o presidente Assad também faz parte! Pensem bem nesta incoerência da propaganda ocidental!
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  • Ainda assim, como pacifista e anti-militarista que era, e que continua a querer ser, Osama sonha com um mundo sem fronteiras, sem vistos, sem ataques às liberdades individuais, portanto um mundo sem países e, em consequência, um mundo sem guerras… Como pacifista que insiste querer ser, Osama desdenha tudo o que são forças armadas, mesmo as do seu país, pois se não existissem exércitos, armas e mercenários, não haveria guerras nem vítimas delas. Veja-se o exemplo do infeliz episódio que passou no exército sírio depois de ter sobrevivido por milagre a um ataque terrorista dos “rebeldes”: cercados por membros de um grupo fortemente armado de “rebeldes”, o grupo do Exército Sírio em que Osama estava inserido foi atacado e dizimado, sobrevivendo apenas Osama e outros 2 colegas sírios. Quando os reforços sírios vieram resgatá-los, começou um outro pesadelo. Osama e os 2 colegas foram violentamente interrogado por oficiais superiores que os acusaram de serem traidores, espiões dos “rebeldes”, soldados vendidos, uma vez que não podiam crer que os 3 tivessem sobrevivido por pura sorte (que era o caso)! E mais, acusaram-no de ser um soldado fraco, que não deu o corpo e a vida pela bandeira síria! Aqui está o problema de Osama, e meu também, de não conseguir compreender a lógica militarista na qual não existe pessoas no mundo, apenas peças de xadrez num grande tabuleiro planetário. Para um rapaz simples que adora roupa fashion e histórias de amor e romance, a lógica militarista pertence de facto a um outro mundo.
  • Um dos piores momentos da sua vida ocorreu quando acabadas quase todas as munições e sem comida nem água, o seu grupo se encontrava cercado por terroristas “rebeldes” fortemente armados. Seguro que iria morrer em breve, telefonou por telemóvel à sua mãe, pedindo desculpas por todos as birras e malandrices que fez a mãe aturar durante a sua infância. Incrivelmente Osama e os colegas resistiram à fome, à sede e às bombas durante 4 dias até que reforços da força área vieram bombardear as posições inimigas e resgatá-los.
  • Por último, conto-vos a sua estória no Líbano, no início da sua fuga. Acabado de chegar sem bens nem dinheiro, Osama andou pelas ruas procurando ajuda, sempre sem sucesso. Cansado da indiferença das pessoas que passavam na rua, foi tentar a sua sorte nas mesquitas, pensando que se se comportasse como bom muçulmano, rezando a Alá e seguindo os rituais dentro dessas mesquitas, alguém acabaria por o ajudar. Mas não, passou o dia a rezar em vão, quando o que queria era ajuda para telefonar a um amigo dele, e comida ou dinheiro. Com as mesquitas já fechadas e chuva caindo do céu feito maldição, Osama passou por acaso por um velho vagabundo, com problemas de locomoção. Este colocou-lhe dinheiro nas mãos e pediu a Osama para ir comprar não sei o quê para o mendigo. Osama pegou no dinheiro pensando em ir fazer o que o velho lhe pedira mas, a meio do percurso, teve um momento de lucidez pragmática e, embora contrariado pelos seus princípios morais, usou o dinheiro para telefonar ao amigo e nunca mais voltou a ver o mendigo. Pouco tempo depois recebeu no banco da cidade o dinheiro que o seu amigo lhe tinha prometido emprestar.

Apesar de todo o pesadelo que viveu e que vive, apesar das más condições económicas e sociais, Osama obrigou-nos a aceitar que ele nos pagasse bilhetes de transportes públicos e que nos comprasse comida e bebida! Eis a genuína hospitalidade síria de que me recordo com saudades, alguém que dá o que não tem e afirma “ser esta a maior felicidade que pode ter”! Pela Europa, States e limitada, estás palavras dariam muito que pensar se vontade houvesse de as analisar… é tudo.

Luís Garcia

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