SILK ROAD TRIP #18 – Istanbul to Doğubeyazıt in 3 days (III)

turkey

 

ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias – Parte 3

25.06.2014 – 21º dia de viagem

Istambul a Doğubeyazıt
Istambul a Doğubeyazıt
Köme

Mais um dia na estrada mais 6 boleias à nossa espera. A primeira delas na saída sul de Trabzon, depois de termos tomado umas sopas turcas para animar o corpo mal-dormido e muito moído das 12 horas passadas dentro do camião. Foi uma viagem curta de 25 km até à pequena cidade de Maçka, mas bem útil pois tirou-nos rapidamente de Trabzon, deixando-nos na rota certa e longe da confusão urbana. Em Maçka a boleia “correu mal”. 10 minutos passados de braço esticado e ninguém parou para nos levar. Decidimos pôr as malas às costas e avançar um pouco a pé, o que não veio acontecer. Já de mochilas às costas e de costas para a estrada, um carro parou e o seu condutor perguntou se precisávamos de boleia! Voilá, afinal nem era preciso esticar o braço!

Com esta nova boleia, de um senhor muito bem educado e muito bem vestido que trabalha para uma empresa japonesa, tivemos direito a 3 paragens para tirar fotos em sítios magníficos na cadeia montanhosa da região e um saco de Köme delicioso (doçaria regional tradicional), além de termos avançado 80 km até Gümüşhane.

A terceira e mais curta boleia do dia foram os 3 km quilómetros atravessados numa velha carrinha, de Gümüşhane até a uma bomba de combustível no cruzamento da estrada que seguia para leste. Boleia curta mas eficiente!

Almoço no chão com o velhinho

Dez segundos depois de sair da carrinha, entrámos numa outra. O condutor era um senhor já velho mas ainda cheio de vida,  divertido, sorridente, e também muito generoso. Poucos minutos depois de termos entrado na carrinha, o velhinho estacionou-a junto a uma fonte de água e ofereceu-nos um almoço de pão, queijo fresco, azeitonas e melão! Só produtos caseiros e plenos de sabor! Que satisfação, para nós que estávamos com fome e sede. Que alegria para o senhor que nos confessou ser a partilha da sua comida com outras pessoas desconhecidas a melhor satisfação que poderia tirar dela, e que a comida sabia melhor quando partilhada. Gente boa não falta por estes terras… Depois de almoçar aproveitámos a fonte para encher as nossas garrafas vazias com água fresca e voltámos à estrada, observando maravilhados o crescendo de cores e formas desconhecidas para nossos olhos e tão abundantes nas montanhas desta região. Era o prenúncio do que ainda viria de melhor, lá nos confins orientais da Turquia…

O simpático velhinho levou-nos até Bayburt, cidade na qual passámos de uma carrinha para um camião TIR, o segundo da viagem que transportava combustíveis. Devido à mercadoria transportada, e apesar das óptimas vias e do camião novo, desperdiçámos imenso tempo chegando a Erzurum muito mais tarde do que imagináramos. Eram quase 5 da tarde quando o condutor nos deixou numa estação de combustível à entrada desta cidade, havendo ainda em teoria 300 km de estrada fazer até Doğubayazıt! Apanhando uma boleia logo de seguida e seguindo a uma média de 80 km/h ainda era possível chegar cedo, pouco depois do sol se por, de forma que permanecemos positivos.

Aproveitámos para fazer compras na estação de serviço e voltámos ao nosso trabalho: a boleia, que apareceu poucos minutos depois… De início pareceu-nos muito interessante a bolei arranjada: o dono da viatura conduzia-a a mais de 100 km/h e logo na estação de serviço seguinte parou para nos comprar sumos! Parecia estar tudo a correr bem até que, ao entrar na cidade Horasan, deparámos com a estrada principal cortada devido a uma manifestação. Para mim haviam 2 soluções simples, contornar a manifestação por ruas secundárias da cidade e voltar à rota certa ou, sairmos do carro, atravessar a cidade a pé e recomeçar à boleia. Mas não, o condutor mudou de direcção e entrou numa estrada na qual as placas já não indicavam a distância para Doğubayazıt mas sim as distâncias para outras cidades a norte completamente fora da nossa rota. Pedi para parar e deixar-nos ali (ainda nos arredores da cidade) mas não, o condutor assegurou-nos que a estrada escolhida era uma alternativa boa e que uns quilómetros à frente iríamos encontrar uma estrada de novo na rota de Doğubayazıt. Contrariado calei-me, observando constantemente a minha bússola. Poucos minutos depois tinha já concluído que estávamos a fazer um imenso disparate seguindo aquela rota norte mas, que fazer? Depois de sairmos de Horasan não havia mais casas, nem pessoas ou carros, apenas imponentes e belas montanhas perdidas na imensidão turca.

Além de estarmos fora da rota, a estrada era péssima e o ritmo da viagem abrandou de forma brusca. Comecei a recear não conseguir chegar a Doğubayazıt neste dia e muita razão tinha em fazê-lo pois progressivamente o discurso do condutor tornou-se numa mixórdia de afirmações absurdas e incoerentes. Disse-nos, por exemplo, que estávamos a 25 km de Doğubayazıt quando o meu mapa e bússola me indicavam que estávamos ainda muito longe e a afastar-se de Doğubayazıt. Garantiu que chegaríamos daí a uma horan mas, passada essa hora, e de acordo com as placas de indicação, estávamos ainda muito longe! Garantidamente entráramos na rota errada, não para leste mas sim para nordeste e começámos a ficar impacientes. Para nos acalmar o condutor prometeu levar-nos até Doğubayazıt e não até à sua terra 50 km antes do nosso destino, como antes tinha sido combinado. Para mim a confusão foi ainda maior! Por que raio tinha este alucinado condutor saído da recta perfeita que nos levaria a Doğubayazıt passando obrigatoriamente pela sua terra, encaminhando-nos para uma rota que não seguia nem para uma terra nem outra. Nas melhores das hipóteses faríamos um arco por nordeste até por fim descer a Doğubayazıt. Quanto ao condutor, teria ainda de voltar à sua terra, rumando a oeste. Que confusão!

Álbum da viagem com o “psicopata”

As horas iam passando e a impaciência foi crescendo até nível insuportáveis, ao ponto de já só falar em português dentro do carro, ignorando-o completamente. Pelo contrário, o condutor parecia estar calmíssimo e a divertir-se imenso, ao ponto de parar numa aldeola no meio do nada onde nos encheu de chás e de parar já depois do por-do-sol para comprar uma meloa, a qual nos obrigou a comer sem fome. Ou melhor, não obrigou, mas opinou que deveríamos ter fome (não tínhamos, ainda mais com o stress!) e afirmou que só seguíamos de viagem quando acabássemos o raio da meloa! Esta gente por vezes até quer ser boa mas acaba por fazer uma grande merda. Se tivéssemos saído em Horasan e permanecido na rota, teríamos por certo feito esses 190 quilómetros restantes em menos de 3 horas, muito nas calmas, e chegado a Doğubayazıt por volta das 21h! Mas não, ainda havia uma grande filme pela frente… 20h, 21h, 22h…. o tempo ía passando, o stress aumentado e Doğubayazıt continuava sempre longe!

A dada altura chegámos a estar a 30km de Iğdır, uma cidade marcada não muito a norte de Doğubayazıt no meu mapa e que aparecia nas placas da estrada que seguíamos. Uma hora depois estávamos a 90 km dessa mesma Iğdır, que pesadelo! Impossível de perceber a psicologia deste bom-psicopata que dizia estar cansado e que tinha de voltar para casa para no dia seguinte conduzir um camião até à longínqua Istambul e, no entanto fazia quilómetros e horas extra de viagem! Impossível de perceber a empatia de quem se oferece para nos levar ao nosso destino final e que no entanto não faz caso nenhum daquilo que lhe dizem as pessoas que ele supostamente quer ajudar: explicámos e bem que andávamos há 3 dias na estrada, que tínhamos semi-dormido a última noite num camião em andamento, que tínhamos amigos à espera para nos dar casa em Doğubayazıt, que morríamos de fadiga, que não aguentávamos mais estar sentados dentro de carros… mas não, o homem, possuído pelo demónio, continuava a inventar estrada.

Feliz da vida, já noite escura, apontou para um aglomerado urbano à nossa frente, muito iluminado, e afirmou: “Lá ao fundo fica Yerevan, capital da Arménia. Aqui está fronteira!”!!! E pois estava! Às 22h estávamos longe de Doğubayazıt e a 600 metros da fronteira com a Arménia! Que filme de terror!  para quê? A partir daí começámos a ficar rudes e só repetíamos “Doğubayazıt, Doğubayazıt”. Por fim o psicopata decidiu acelerar a fundo, destruindo as suspensões do carro nas crateras da estrada mas, enfim, problema dele. Eram 23h15 quando por fim entrámos em Doğubayazıt… e o filme ainda não acabara

Horas antes, às 20, tínhamos telefonado ao nosso amigo Mehmet em Doğubayazıt e informado que chegaríamos às 21h (previsão do psicopata). Eu pedi a Claire para dizer a Mehmet que seria “mais tarde”… Nessa altura o psicopata pegou também no telemóvel e chegou a falar em turco com o nosso amigo, mas ficámos sei saber o quê pois a chamada caiu. Perto das 23h tínhamos ligado de novo ao nosso amigo e garantido que estávamos mesmo a entrar na cidade. Mehmet, como é lógico, disse Claire que não havia problema e que nos esperava. No entanto, o psicopata pegou de novo no telemóvel, falou em turco e a chamada caiu de novo. Desligado o telemóvel, afirmou que o nosso amigo não estava à nossa espera e que só contava nos acolher no dia seguinte! Absurdo, impossível, há semanas que estava combinado chegarmos neste preciso dia a Doğubayazıt e Mehmet nem dormia de impaciência para que chegássemos. Certo é que, quando parámos numa estação de combustível à entrada de Doğubayazıt não conseguimos telefonar a mehmet. o telemóvel estava desligado. Insistimos, mas em vão. Por seu turno, o psicopata continuava a afirmar que Mehmet estava chateado connosco e que só nos acolheria no dia seguinte. Não fizemos caso e pedimos para seguir até dentro da cidade, mas o raio do psicopata que tínha feito uma imensidão de quilómetros extra para nada agora recusava-se a entrar na cidade com o carro, defendendo-se com a desculpa de “não conhecer a cidade! E insistia que o melhor era irmos dormir na casa dele! Ah, mas não, mesmo não! Antes dormir ali no chão da estação! Tivemos que insistir e obrigá-lo a conduzir-nos para dentro da cidade! Afinal depois de 3 dias de viagem, não poderíamos morrer na praia, ficando a 4 km da cidade onde um amigo há muito nos esperava!

Apesar de ser turco, tivemos de ser nós a pedir indicações aos locais e a guiá-lo até perto do centro. O psicopata,  fluente em turco, “percebia” as indicações todas do avesso e teimava em nos levar para sua casa. Sem mais paciência mandá-mos parar o carro e fizemos o último quilómetro a pé até à rua onde se encontra a agência de turismo do nosso amigo. Faltava entrar em contacto com Mehmet o nosso amigo. Tentámos várias vezes, com telemóveis emprestados por quem passava na rua. Nada. Desesperados começámos a afastar-nos da rua, à procura de sítio onde meter a tenda, mas seria impossível dada o amontoado de lama, lixo e podridão um pouco por todo lado…. perto da meia-noite tentámos a nossa sorte com mais um telefonema e voilá, Mehmet atendeu! Estava bêbado, adormecera e desligara o telemóvel por acidente. Mas claro que nos esperava e claro que não estava chateado, antes muito preocupado. Coitado, veio a correr bêbado de chinelos e pijama suado pelas ruas de Doğubayazıt, da sua casa até à sua agência, para nos afogar em abraços e beijos!🙂 Disse-nos que tinha muitos convidados a dormir na sua agência e, pegando-nos aos 2 pelas mãos, foi levar-nos a um bom hotel no qual pagou-nos uma noite… que filme, que filme……

Neste 3 dias na estrada, em vez dos 1500 km teóricos, acabámos por fazer 1850 km!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s