SILK ROAD TRIP #25 – Quest for Iranian visa

turkey

ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Em busca do visto iraniano

06/07.06.2014 – 32º e 33º dias de viagem

No dia 6, com muito esforço conseguimos nos levantar cedo e sair às 9 hora da manhã, como planeado. Tínhamos pela frente 600 km de boleia para fazer num dia, de Doğubeyazıt a Trabzon, de forma a poder tratar do visto para o Irão no dia seguinte de manhã (2ª-feira). Com 2 mini-boleias saímos da cidade, parados na estrada principal rumo ao ocidente turco. Tínhamos decidido não pedir boleias a camiões, apenas a carros, para podermos andar mais rápido,  mas não deu para resistir. O conduto de um camião ao qual não pedimos boleia fez-nos sinais de luzes, apitou-nos e, vendo que não reagíamos, para mesmo a viatura e chamou-nos! Queria mesmo nos dar boleia o raio do homem!

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Ufuk, o Camionista-Pensador turco

Chamava-se Ufuk (“horizonte” em turco, que fica bem a um condutor de camiões que passa o dia a olhar para ele), inteligente, irreverente, interessado em política… mais, um espírito livre que sonha refugiar-se isolado num monte longe deste caos de escravatura moderna, crises, políticos mafiosos e ditaduras económicas. Apesar do nosso fraco turco, deu para fazer perceber uns aos outros que tínhamos muitas ideias e convicções em comum, coisa rara nesta Turquia de gente boa hiper-lobotimizada pelos media, ao ponto de nos convidar para fugirmos os 3 um dia para um monte isolado, com casa, jardim e animais de pasto (Eu Quero uma casa no campo, Elis Regina), auto-suficientes e livres da “máquina”… eu respondi que sim, de preferência numa ilha isolada da Indonésia… Heheh🙂 Ufuk foi o primeiro turco que encontrei a falar abertamente mal do senhor Erdoğan (primeiro-ministro turco), chamando-lhe inclusive de “big dictator”! Grande Ufuk, ao contrário da esmagadora maioria turca, crítica o apoio turco ao terrorismo na Síria, sabe e admite que o problema curdo foi começado pelos turcos a mando dos EUA, tem ódio e raiva aos EUA (que apelida de Satã), mete-lhe nojo que Israel possa matar 8 civis turcos sem sofrer represálias da Turquia, e por aí fora. Ufuk é um homem “sem papas na língua” num país em que quase toda a gente segue as lengalengas do governo e da imprensa. Uma raridade portanto!

Houve muita conversa pelo caminho mas também ao livre, mais de uma hora num banco de um restaurante fechado de uma estação de serviço a beber sumo (oferecido por Ufuk), e quase outra hora noutro restaurante aberto onde Ufuk nos pagou almoço e chás! É verdade que com o ritmo lento e as paragens, passámos uma boa parte do dia com ele, em vez de avançar. Ainda assim, fizemos metade do percurso de uma só vez e ainda tínhamos umas horas de sol para chegar a Trabzon.

Na saída da auto-estrada para Yoncalik, onde nos deixou, tentámos boleia pela rota indicada uns dias antes no googlemaps. Disparate! Andámos até Yoncalik de camião para depois ficarmos parados no meio do nada. Parados porque ninguém parava para nos levar, e se abrandavam era para gozar não para ajudar (que raio de buraco negro da boleia esta zona)! No meio do nada porque de facto por ali não iríamos a lado nenhum. Quem confirmou a nossa suspeita foi um senhor que ia a Yoncalik para um tarefa de 1 minuto e voltar para trás, e que assim deu-nos boleia de regresso à estrada principal.

Voltámos à rota certa mas eram já 18h30 e estávamos super desiludidos, receosos de não chegar a Trabzon no mesmo dia. Felizmente um camião parou para nos avançar uns quilómetros até Askale, deixando-nos à entrada da estrada certa para Trabzon. Faltava o resto, 223 km, e começava a ser de facto tarde para realizar esta distância durante o dia… mas não, mais um milagre, quando o desespero começava a reinar, um camião de um curdo de Van com destino a TRABZON parou para nos dar boleia! Ah, que sorte!

Passámos a viagem a ouvir música curda, descontraídos, observando as belas montanhas da região. Que viagem tranquila. A meio do percurso, como manda a tradição, parámos num bar a 2500 metros de altitude, onde nos pagou uns chás. Enquanto bebíamos, os 4 locais eufóricos não paravam de os fazer perguntas. Pareciam saber mais de futebol português que eu, um adorava o Rui Costa, outro o Tiago (do A. Madrid). E por falar de futebol, foi a segunda vez que falei com turcos que conheciam, além do Benfica e Porto, algumas equipas médias como o S. Braga ou o Guimarães, sem no entanto reconhecerem o nome Sporting C. P.! A sério! Hehe, sinais do tempo…

À noite, em Trabzon, mais um filme absurdo típico de camionistas turcos: no início da viagem convidou-nos para ficarmos na cama extra do camião, e até se ofereceu para pagar-nos um quarto de hotel (claro que recusámos, a cama do camião chegaria bem). Chegados a Trabzon pergunta-nos: “Então e agora, onde é que vão ficar hoje?” Ahhh, e já não se lembrava de ter proposto a cama extra! E além do mais foi dizer a outros 2 colegas no parque de estacionamento que “ali estavam 2 turistas meio turistas meios perdidos”! Ah, discrição acima de tudo, não haja dúvida. Sem stress pegámos nas malas e afastámo-nos um meio quilómetro até encontrar um pequeno parque com árvores e erva, onde montámos a tenda e passámos uma noite tranquila no meio do caos urbano e podre de Trabzon. Difícil de acreditar mas sim, foi uma noite tranquila.

Dia 7 acordámos com o calor sufocante e com o ruído dos milhares de carros passando na via rápida 5 metros ao lado. Aproveitámos haver umas oficinas de carros mesmo por detrás do parque para usar a casa de banho de uma delas, desmontámos a tenda e pusémo-nos a caminho do centro de Trabzon. Para não variar, cheios de calor, suados, sob um tórrido sol e envoltos por um sufocante ar húmido e poluído. Fizemos meio caminho a pé em direcção à embaixada do Irão, a maior parte a subir, até que uma alma caridosa parou e nos levou até à porta principal da embaixada! Que luxo!

À porta da embaixada fomos encontrar uma fila de espera de viajantes do Japão, França e Polónia. Esperámos pacientemente a nossa vez até sermos atendidos por gente rude e bruta que mal sabia falar inglês. Ainda assim conseguimos nos desenrascar, preenchemos a papelada, entregámos os passaportes e partimos com a informação contraditória de que poderíamos vir levantar os passaportes com os vistos às 4 e meia da tarde! Bizarro, muito bizarro, uma vez que o horário de atendimento da tarde era das 14h às 16h30. Insistimos imenso, perguntámos se não poderíamos vir logo às 14h, na reabertura, mas não, obtivemos sempre a mesma resposta: 16h30 da tarde! Decidimos voltar por voltas das 16 horas, para não correr o risco de perder um dia em mal-entendidos. Antes de irmos embora, Claire teve de ir a um fotógrafo tirar novas fotos com lenço na cabeça, sem lenço “não dá para pôr no visto iraniano”! Enfim.

Com 4 horas e meia para gastar, fomos visitar o centro de Trabzon e almoçar no sítio mais em conta que encontrámos. Quando nos fartámos, voltámos ao parque mesmo em frente à embaixada, onde queimámos horas à espera dos vistos. Às 16h15 entrámos de novo na embaixada, onde nos esperava uma grande surpresa. O visto não era para pagar em espécie, mas sim numa conta bancária num banco específico turco no centro de Trabzon. O problema era que faltavam 13 minutos para a embaixada fechar, a distância para a rua dos bancos era grande, as ruas estavam apinhadas de gente andando em slow-motion e, sobretudo, as inclinações do terreno em Trabzon são elevadíssimas. Para piorar, não quiseram ficar com as nossas malas na embaixada. Felizmente encontrámos um polícia turco junto à embaixada que se encarregou de tomar conta delas! Ah, corremos feitos loucos atropelando gente e tropeçando em todo o lado, fazendo parar carros, etc… até que por fim demos com o banco. Passámos à frente de toda a gente e explicámos a situação a uma jovem muito simpática que tratou da transferência em menos de 2 minutos. Depois foi correr de volta a embaixada, subir inclinações de quase 45º em sprint e sim, às 14h29 estava dentro da embaixada entregando o recibo. Já nem queria saber do passaporte, apenas queria um banco para me sentar. As pernas tremiam e o corpo escorriam rios de suor. Por fim tínhamos os vistos para o Irão! Ah, que alegria… Um minuto depois saiu todo o pessoal da embaixada nos seus carrões de vidros fumados.

Afinal poderíamos ter levantado os passaportes às 14h e partir muito mais cedo para a Geórgia. Graças à estupidez do pessoal da embaixada, eram já 16h30 e nós tremíamos de cansaço no centro da enorme cidade de Trabzon, longe da saída onde tínhamos de ir procurar boleia. Que remédio senão caminhar lentamente até lá!

A primeira boleia foi de 3 jovens muito divertidos que nos avançaram alguns quilómetros até Yomra. A segunda foi a de um simpático mas tresloucado condutor de camiões que se pôs ao despique a alta velocidade com outros 2 camiões dentro de túneis apertados! Convém acrescentar que os 3 camiões transportavam combustível e que o nosso condutor fumava cigarros atrás de cigarros e mandava-os fora pela janela! Que terror! Bom, pelo menos fizemos metade do caminho, até à cidade de Rise, terra natal do trafulha do primeiro-ministro turco Erdogan. De rir, além da universidade de Rise ter o nome do dito cujo, fomos encontrar centenas de retratos de Erdogan espalhados por toda a cidade! Depois venham me falar dos retratos e estátuas de Saddam Hussein, sim…

Antes de recomeçarmos a boleia em Rise, fomos a uma loja comprar pão e fruta. Como o dono era muito simpático, pedimos para lavar a uva e encher a nossa garrafa de água. Detalhe interessante: quando lhe dissemos que éramos os 2 portugueses, o senhor disse que não acreditava. Para ele Claire tinha cara e pele de portuguesa enquanto que eu não! Nem de propósito o contrário é verdade, eu português e ela francesa. A explicação é simples, para ele todos os europeus são branquinhos e a minha barba gigante só pode ser de paquistanês ou algo parecido! Ahahahah!

A última boleia do dia foi de 3 jovens malucos e manifestamente pedrados que nos levaram até Arhavi (já muito perto da fronteira com a Geórgia), onde jantámos tranquilamente no parque da cidade e montámos a tenda não muito longe, no meios das obras de uma nova estrada…

Luís Garcia

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