SILK ROAD TRIP #25 – Quest for Iranian visa

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PORTUGUÊS:

Em busca do visto iraniano

06/07.06.2014 – 32º e 33º dias de viagem

No dia 6, com muito esforço conseguimos nos levantar cedo e sair às 9 hora da manhã, como planeado. Tínhamos pela frente 600 km de boleia para fazer num dia, de Doğubeyazıt a Trabzon, de forma a poder tratar do visto para o Irão no dia seguinte de manhã (2ª-feira). Com 2 mini-boleias saímos da cidade, parados na estrada principal rumo ao ocidente turco. Tínhamos decidido não pedir boleias a camiões, apenas a carros, para podermos andar mais rápido,  mas não deu para resistir. O conduto de um camião ao qual não pedimos boleia fez-nos sinais de luzes, apitou-nos e, vendo que não reagíamos, para mesmo a viatura e chamou-nos! Queria mesmo nos dar boleia o raio do homem!

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Ufuk, o Camionista-Pensador turco

Chamava-se Ufuk (“horizonte” em turco, que fica bem a um condutor de camiões que passa o dia a olhar para ele), inteligente, irreverente, interessado em política… mais, um espírito livre que sonha refugiar-se isolado num monte longe deste caos de escravatura moderna, crises, políticos mafiosos e ditaduras económicas. Apesar do nosso fraco turco, deu para fazer perceber uns aos outros que tínhamos muitas ideias e convicções em comum, coisa rara nesta Turquia de gente boa hiper-lobotimizada pelos media, ao ponto de nos convidar para fugirmos os 3 um dia para um monte isolado, com casa, jardim e animais de pasto (Eu Quero uma casa no campo, Elis Regina), auto-suficientes e livres da “máquina”… eu respondi que sim, de preferência numa ilha isolada da Indonésia… Heheh 🙂 Ufuk foi o primeiro turco que encontrei a falar abertamente mal do senhor Erdoğan (primeiro-ministro turco), chamando-lhe inclusive de “big dictator”! Grande Ufuk, ao contrário da esmagadora maioria turca, crítica o apoio turco ao terrorismo na Síria, sabe e admite que o problema curdo foi começado pelos turcos a mando dos EUA, tem ódio e raiva aos EUA (que apelida de Satã), mete-lhe nojo que Israel possa matar 8 civis turcos sem sofrer represálias da Turquia, e por aí fora. Ufuk é um homem “sem papas na língua” num país em que quase toda a gente segue as lengalengas do governo e da imprensa. Uma raridade portanto!

Houve muita conversa pelo caminho mas também ao livre, mais de uma hora num banco de um restaurante fechado de uma estação de serviço a beber sumo (oferecido por Ufuk), e quase outra hora noutro restaurante aberto onde Ufuk nos pagou almoço e chás! É verdade que com o ritmo lento e as paragens, passámos uma boa parte do dia com ele, em vez de avançar. Ainda assim, fizemos metade do percurso de uma só vez e ainda tínhamos umas horas de sol para chegar a Trabzon.

Na saída da auto-estrada para Yoncalik, onde nos deixou, tentámos boleia pela rota indicada uns dias antes no googlemaps. Disparate! Andámos até Yoncalik de camião para depois ficarmos parados no meio do nada. Parados porque ninguém parava para nos levar, e se abrandavam era para gozar não para ajudar (que raio de buraco negro da boleia esta zona)! No meio do nada porque de facto por ali não iríamos a lado nenhum. Quem confirmou a nossa suspeita foi um senhor que ia a Yoncalik para um tarefa de 1 minuto e voltar para trás, e que assim deu-nos boleia de regresso à estrada principal.

Voltámos à rota certa mas eram já 18h30 e estávamos super desiludidos, receosos de não chegar a Trabzon no mesmo dia. Felizmente um camião parou para nos avançar uns quilómetros até Askale, deixando-nos à entrada da estrada certa para Trabzon. Faltava o resto, 223 km, e começava a ser de facto tarde para realizar esta distância durante o dia… mas não, mais um milagre, quando o desespero começava a reinar, um camião de um curdo de Van com destino a TRABZON parou para nos dar boleia! Ah, que sorte!

Passámos a viagem a ouvir música curda, descontraídos, observando as belas montanhas da região. Que viagem tranquila. A meio do percurso, como manda a tradição, parámos num bar a 2500 metros de altitude, onde nos pagou uns chás. Enquanto bebíamos, os 4 locais eufóricos não paravam de os fazer perguntas. Pareciam saber mais de futebol português que eu, um adorava o Rui Costa, outro o Tiago (do A. Madrid). E por falar de futebol, foi a segunda vez que falei com turcos que conheciam, além do Benfica e Porto, algumas equipas médias como o S. Braga ou o Guimarães, sem no entanto reconhecerem o nome Sporting C. P.! A sério! Hehe, sinais do tempo…

À noite, em Trabzon, mais um filme absurdo típico de camionistas turcos: no início da viagem convidou-nos para ficarmos na cama extra do camião, e até se ofereceu para pagar-nos um quarto de hotel (claro que recusámos, a cama do camião chegaria bem). Chegados a Trabzon pergunta-nos: “Então e agora, onde é que vão ficar hoje?” Ahhh, e já não se lembrava de ter proposto a cama extra! E além do mais foi dizer a outros 2 colegas no parque de estacionamento que “ali estavam 2 turistas meio turistas meios perdidos”! Ah, discrição acima de tudo, não haja dúvida. Sem stress pegámos nas malas e afastámo-nos um meio quilómetro até encontrar um pequeno parque com árvores e erva, onde montámos a tenda e passámos uma noite tranquila no meio do caos urbano e podre de Trabzon. Difícil de acreditar mas sim, foi uma noite tranquila.

Dia 7 acordámos com o calor sufocante e com o ruído dos milhares de carros passando na via rápida 5 metros ao lado. Aproveitámos haver umas oficinas de carros mesmo por detrás do parque para usar a casa de banho de uma delas, desmontámos a tenda e pusémo-nos a caminho do centro de Trabzon. Para não variar, cheios de calor, suados, sob um tórrido sol e envoltos por um sufocante ar húmido e poluído. Fizemos meio caminho a pé em direcção à embaixada do Irão, a maior parte a subir, até que uma alma caridosa parou e nos levou até à porta principal da embaixada! Que luxo!

À porta da embaixada fomos encontrar uma fila de espera de viajantes do Japão, França e Polónia. Esperámos pacientemente a nossa vez até sermos atendidos por gente rude e bruta que mal sabia falar inglês. Ainda assim conseguimos nos desenrascar, preenchemos a papelada, entregámos os passaportes e partimos com a informação contraditória de que poderíamos vir levantar os passaportes com os vistos às 4 e meia da tarde! Bizarro, muito bizarro, uma vez que o horário de atendimento da tarde era das 14h às 16h30. Insistimos imenso, perguntámos se não poderíamos vir logo às 14h, na reabertura, mas não, obtivemos sempre a mesma resposta: 16h30 da tarde! Decidimos voltar por voltas das 16 horas, para não correr o risco de perder um dia em mal-entendidos. Antes de irmos embora, Claire teve de ir a um fotógrafo tirar novas fotos com lenço na cabeça, sem lenço “não dá para pôr no visto iraniano”! Enfim.

Com 4 horas e meia para gastar, fomos visitar o centro de Trabzon e almoçar no sítio mais em conta que encontrámos. Quando nos fartámos, voltámos ao parque mesmo em frente à embaixada, onde queimámos horas à espera dos vistos. Às 16h15 entrámos de novo na embaixada, onde nos esperava uma grande surpresa. O visto não era para pagar em espécie, mas sim numa conta bancária num banco específico turco no centro de Trabzon. O problema era que faltavam 13 minutos para a embaixada fechar, a distância para a rua dos bancos era grande, as ruas estavam apinhadas de gente andando em slow-motion e, sobretudo, as inclinações do terreno em Trabzon são elevadíssimas. Para piorar, não quiseram ficar com as nossas malas na embaixada. Felizmente encontrámos um polícia turco junto à embaixada que se encarregou de tomar conta delas! Ah, corremos feitos loucos atropelando gente e tropeçando em todo o lado, fazendo parar carros, etc… até que por fim demos com o banco. Passámos à frente de toda a gente e explicámos a situação a uma jovem muito simpática que tratou da transferência em menos de 2 minutos. Depois foi correr de volta a embaixada, subir inclinações de quase 45º em sprint e sim, às 14h29 estava dentro da embaixada entregando o recibo. Já nem queria saber do passaporte, apenas queria um banco para me sentar. As pernas tremiam e o corpo escorriam rios de suor. Por fim tínhamos os vistos para o Irão! Ah, que alegria… Um minuto depois saiu todo o pessoal da embaixada nos seus carrões de vidros fumados.

Afinal poderíamos ter levantado os passaportes às 14h e partir muito mais cedo para a Geórgia. Graças à estupidez do pessoal da embaixada, eram já 16h30 e nós tremíamos de cansaço no centro da enorme cidade de Trabzon, longe da saída onde tínhamos de ir procurar boleia. Que remédio senão caminhar lentamente até lá!

A primeira boleia foi de 3 jovens muito divertidos que nos avançaram alguns quilómetros até Yomra. A segunda foi a de um simpático mas tresloucado condutor de camiões que se pôs ao despique a alta velocidade com outros 2 camiões dentro de túneis apertados! Convém acrescentar que os 3 camiões transportavam combustível e que o nosso condutor fumava cigarros atrás de cigarros e mandava-os fora pela janela! Que terror! Bom, pelo menos fizemos metade do caminho, até à cidade de Rise, terra natal do trafulha do primeiro-ministro turco Erdogan. De rir, além da universidade de Rise ter o nome do dito cujo, fomos encontrar centenas de retratos de Erdogan espalhados por toda a cidade! Depois venham me falar dos retratos e estátuas de Saddam Hussein, sim…

Antes de recomeçarmos a boleia em Rise, fomos a uma loja comprar pão e fruta. Como o dono era muito simpático, pedimos para lavar a uva e encher a nossa garrafa de água. Detalhe interessante: quando lhe dissemos que éramos os 2 portugueses, o senhor disse que não acreditava. Para ele Claire tinha cara e pele de portuguesa enquanto que eu não! Nem de propósito o contrário é verdade, eu português e ela francesa. A explicação é simples, para ele todos os europeus são branquinhos e a minha barba gigante só pode ser de paquistanês ou algo parecido! Ahahahah!

A última boleia do dia foi de 3 jovens malucos e manifestamente pedrados que nos levaram até Arhavi (já muito perto da fronteira com a Geórgia), onde jantámos tranquilamente no parque da cidade e montámos a tenda não muito longe, no meios das obras de uma nova estrada…

Luís Garcia

Arhavi, Turkey, 2014

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Trabzon, Turkey, 2014

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2500m altitude bar, Bayburt-Gumushane, Turkey

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nearby Yoncalik, Turkey, 2014

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Last day in Doğubayazıt, Turkey, 2014

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Location: 

Dinner in a concrete factory, Doğubayazıt, Turkey, 2014

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Location: 

Cicling back to Dogubeyazit, Turkey, 2014

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Location: 

Demir Tepe, Turkey, 2014

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Location: 

Cicling Towards Ararat Mountain, Turkey, 2014

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Location: 

SILK ROAD TRIP #24 – Last days in Doğubeyazıt

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Últimos dias em Doğubeyazıt

02-05.06.2014 – 28º, 29º, 30º e 31º dias de viagem

Era suposto partirmos no dia 3 de Julho para Trabzon, cidade na costa turca do Mar Negro, mas a partida súbita em trabalho (para o Irão) do nosso anfitrião Mehmet trocou-nos as voltas. Com a ajuda e contactos de Mehmet, tínhamos a certeza de obter o visto para o Irão (em Trabzon) no próprio dia. Sem ele, algo poderia correr mal, de forma que ficámos em vão à sua espera mais uns dias.
Foram dias calmos, com poucas saídas e muito tempo a escrever no escritório de Mehmet. Ainda assim, em cada um dos 4 dias aconteceram situações divertidas e/ou absurdas sempre que saímos à rua e até mesmo sem sair. Fica aqui um resumo dessas últimas peripécias em Doğubeyazıt.

Dia 2 de Julho:

A manhã foi passada exclusivamente a lavar e limpar o apartamento/agência de Mehmet, onde muitos viajantes, amigos e conhecidos de Mehmet vêm dormir, comer, beber chá, usar internet ou tomar banho. Tudo bem, são muito bem vindos, o problema é que ninguém se dá ao trabalho de manter a casa limpa. Chegou a um ponto em que as paredes da cozinha e casa de banho passaram de brancas a castanhas escuras, viscosas e colantes. Com tempo livre para gastar e de novo com água na cisterna, fizemos a casa voltar a brilhar e cheirar bem!
À tarde saímos para imprimir umas fotos. Como estamos na Turquia chá nunca falta, de forma que tivemos que aceitar beber um chá cada enquanto se imprimiam as folhas. Depois pedimos emprestada uma tesoura para recortar as fotos e enquanto o fizemos bebemos ainda um café cada, também de graça. Também deu para rir, quando um dos muitos curdos dentro da livraria apontou para a bandeira curda na nossa mala e perguntou-nos se era a bandeira do Brasil!?! Ah, coitado, não conseguiu escapar ao gozo do resto dos curdos presentes! :p
De volta a casa para montar o quadro (para oferecer a Mehmet) com as fotografias imprimidas, fomos encontrar Mahmud à nossa espera na sala principal. Coincidência, estávamos a planear telefonar-lhe para saber se podia nos emprestar o jipe e ei-lo à nossa espera. Mas não, o seu irmão levou o jipe para ir a outra cidade, não vamos ter jipe desta vez. Azar.
À noite fomos passear com o nosso amigo Armağan, que nos comprou doces pelo caminho, até à zona do costume onde nos enchemos de chás todas as noites. Desta vez houve um extra, aprender a jogar tavla, o jogo de tabuleiro mais jogado na Turquia. A caminho da casa da família de Armağan encontrámos um amigo seu: mais doces e figos secos! Na casa da família de Armagan, com a sua eufórica mãe (Fatma) e a sua querida irmã (Derya), passámos um belo serão a rir, conversar e comer! Que sensação de estar em casa entre família! 🙂

Dia 3 de Julho:

O dia mais calmo da viagem. Manhã a dormir, tarde a escrever, noite convívio com a nossa família adoptiva em sua casa: Armagan, a sua mãe Fatma e a sua irmã Derya. Quanto ao Pai, Mehmet Arik, continua no Irão mais uns dias ganhando a vida como sabe (organização de escursões turísticas).

Dia 4 de Julho:

Depois de almoço, aborrecidos de estar em casa, pedimos 2 bicicletas emprestadas aos suecos (que ainda continuam a dormir no quarto de visitas da agência) e fomos desbravar terreno em direcção ao monte Ararat, sem plano nem rota programada, apenas com a omnipresente vontade de explorar lugares desconhecidos e encontrar outras gentes…
Assim que saímos de Doğubeyazıt, deixámos a estrada principal e seguimos a direito com as bicicletas, atravessando campos de variadas cores e formas, como um dinâmico caleidoscópio que nos obriga a sair constantemente da bicicleta para tirar “só mais uma foto”… e passa-se bem um dia assim, sobretudo quando se tem o monte Ararat pela frente e se está numa planície rodeada a 360º por uma imponente cadeia de montanhosa.

Umas horas depois de sair de casa, e após ter vistos rebanhos, encontrado gente, descansado em cima de fardos de palha, e por aí fora, estávamos por fim a uns metros da aldeia que avistáramos ao longe, no sopé do Ararat. Tão perto e tão longe, uns 15 ou 20 metros de pântano entre nós e a aldeia de Demir Tepe obrigou-nos a sair das bicicletas sem saber o que fazer. Felizmente encontrámos uns camponeses perto e fomos pedir ajuda. Uma jovem muito simpática que se preparava para voltar para casa chamou-nos e aconselhou-nos a seguir os seus passos calculados por entre o pântano. Para não estragar as botas, prendemo-las às bicicletas e atravessámos o pântano descalços. Do outro lado do pântano fomos encontrar a casa desta sorridente jovem e a sua acolhedora família que nos deu água para lavar as pernas e nos encheu as garrafas com água gelada que bem precisávamos! Como de costume, a mãe apareceu com chá e lá ficámos quase até ao por-do-sol na “treta” com gente curiosa como nós, com muita vontade de ouvir e perguntar, de descobrir as diferenças e semelhanças que separaram o seu “mundo” do “mundo” deste dois maluquinhos que atravessam pântanos de bicicleta… ah, que tarde linda passada em frente ao monte Ararat.
Ao por-do-sol fomos finalmente dar uma volta de bicicleta pela aldeia de Demir Tepe, para depois nos metermos à estrada em ritmo acelerado receosos de ter de andar de bicicleta à noite numa zona sem iluminação e com tanto “piloto de formula 1”! Mas não, não chegámos a por as rodas das bicicletas no asfalto da estrada principal. Quando nos faltava apenas 200 metros de terra batida (e ainda 5km para Doğubeyazıt) uma carrinha parou e dela saiu um senhor com vontade de ajudar. Meteu as bicicletas dentro da carrinha e prometeu nos levar a Doğubeyazıt. 1 km à frente parou numa fábrica de cimento que nos garantiu ser sua e convidou-nos para jantar na cantina onde comem os seus empregados! Ah, que banquete, sobretudo pela qualidade da comida! Findo o jantar, voltámos à carrinha e o gentil senhor foi nos deixar em frente à porta da agência de Mehmet, ou seja, à porta de casa…. que luxo!
À noite, fomos ao sítio do costume para conversas e chás… 🙂

Dia 5 de Julho:

O grande momento da manhã foi descobrir que havia um camião dos bombeiros estacionado num parque perto da agência a distribuir gratuitamente água. Como já não havia uma gota de água na nossa cisterna, nem sequer nos garrafões, andámos para trás e para a frente com garrafões de 20 e de 5 litros, com a ajuda de 2 miúdos que vieram para ganhar uns trocos extra. Quando já não nos podíamos mexer, fomos chamar os suecos (os tais que residem há semanas na agência para nos ajudar!

Durante o resto do dia passei um bocado no escritório, saindo com Claire para ir jogar à bola junto a uma vintena de miúdos endiabrados, na praça imunda e fétida por detrás do edifício da agência. À noite, para a despedida, voltámos ao sítio do costume para mais chás e conversas. Ah, é verdade, Claire voltou a receber umas prendas “meio maradas” do pessoal dos chás… mundo louco, hehe!

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #23 – Hitchhiking to Van

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PORTUGUÊS:

À boleia até Van

30.06.2014 – 26º dia de viagem

Primeiro tomámos o pequeno-almoço com a agradável companhia da alemã, uma pessoa sábia e muito viajada. Depois, já com a mochila para a viagem às costas, fomos com Mehmet até à sede da Juventude do Partido Democrático do Curdistão, onde estivemos à conversa com o líder do grupo (que passou metade dos seus 34 anos em prisões turcas) e alguns dos seus membros. Aqui ficam algumas das queixas:

  • Ao contrário daquilo que dizem os media lobotimizantes turcos, o Partido Democrático do Curdistão, não pede nem defende a independência do Curdistão Turco (ao contrário do Curdistão Iraquiano que estás a poucos dias de se tornar independente com a ajuda e cumplicidade dos EUA, de Israel e sim, da incoerente Turquia que passa o tempo a dar tiros nos pés (ler artigo de Thierry Meyssan: EIIL : Que alvo após o Iraque?, de 30 de Junho de 2014)
  • Pede antes a libertação imediata de Abdullah Öcalam, o seu líderes histórico encarcerado na prisão especial da Ilha de Imralı, no Mar de Marmara, onde é o único residente. Segundo o líder da juventude do PDK, a população curda anseia por um Öcalam livre que os guie e inspire na revolução cultural “ao estilo internacionalista” que o Curdistão tanto precisa, combatendo não só a omnipresente opressão turca, como também a falta de dinamismo da sociedade curda, perdida entre muitos preconceitos e pouca eficácia. Esperam que Öcalam os guie na necessária liberalização das mulheres curdas, na criação de um ensino universal em curdo, etc,… no fundo, que os guie na protecção e modernização de uma sociedade curda que em plena posse dos seus direitos enquanto seres humanos e cidadãos da Turquia, “não se vejam na obrigação de fazer luta armada por uma independência do Curdistão Turco”! Que “antes que se sintam parte integrante e respeitada da Turquia!”. Daí que acusem (tal como eu) o nacionalismo militarista, o terrorismo de estado e as tentativas de genocídio cultural do estado turco como os verdadeiros responsáveis pelo aparecimento dos movimentos rebeldes independentistas do Curdistão Turco.
  • Lamentam a presença absurda de bases militares turcas dentro das suas cidades; lamentam ainda mais o comportamento da polícia turca que “descaradamente distribui drogas por entre a população curda adolescente”. A ser verdade, faz-me lembrar a distribuição e o incentivo ao consumo de álcool nas populações aborígenes por parte das entidades oficias australianas, de forma a destruir o que sobra das sociedades aborígenes espezinhadas e criar-lhes uma péssima imagem de grande utilidade para a sua diabolização nos media nacionais australianos. Dá que pensar!
  • Garantiram-me que respeitam imenso as restantes minorias da Turquia, e que mantém contactos frequentes com algumas dessas comunidades, como é o caso dos arménios da Turquia. Insistiram que anseiam por uma Turquia “internacionalista”, unida num estado mas rica e diversa em cultura proveniente dos inúmeros grupos étnicos.

Marcámos um outro encontro para uns dias mais tarde, com mais tempo e alguém fluente em inglês para traduzir. Infelizmente por várias razões (nossas) não foi possível realizar essa entrevista gravada. Fica para a próxima visita ao Curdistão Turco.

Sim, íamos fazer uma viagem hoje! Começámos à boleia uns metros depois da sede da juventude do PDK, onde de imediato apanhámos boleia de Mahmud, um jovem desportista curdo da selecção nacional de esqui da Turquia. Mahmud levou-nos até à saída da cidade, ofereceu-se para emprestar o seu (maravilhoso) jipe no caso de queremos passear pelos montes e convidou-nos para jantar em sua casa assim que voltássemos da viajem de 2 dias até Van. De onde nos deixou, com uma imensa sorte, apanhámos de imediato outra boleia num bom jipe que a mais de 140 km/h nos levou directamente para Van!!! Pelo caminho vimos montanhas belas de cortar a respiração e inúmeros vilarejos curdos espalhados pelos montes e vales. Passámos a menos de 2 km da fronteira com Irão (viam-se as torres de vigia) e também em algumas cidades curdas, todas com a claustrofóbica presença de bases militares turcas em plena zona urbana central!
Van é uma cidade enorme. A nossa boleia deixou-nos apenas na entrada. Daí que tenhamos precisado de mais 3 curtas boleias dentro da cidade para chegar à beira do Lago Van, o maior da Turquia. A última boleia foi a mais interessante, a de um casal curdo lindo e super apaixonado, muito bem vestidos, de bom-humor e donos de um formidável bólide. Com muita gentileza pararam primeiro para nos comprar garrafas de água gelada. Só depois seguiram para nos deixar mesmo em frente ao lago! Que gente boa!

A vontade se saltar para dentro de água era imensa, mas uma vez mais fomos “obrigados” a tomar uns chás oferecidos por uns simpáticos pescadores que descansavam à sombra de um chapéu de sol. Bebemos os chás à pressa, impacientes, e 15 minutos depois conseguimos nos “libertar”! Fugimos um pouco do porto, na esperança de encontrar sossego e privacidade naquela praia imunda. Quando fomos tomar banho estávamos sozinhos naquela zona da praia. Quando saímos de água, além de desiludidos pela nível de poluição da água (horrível), tivemos de aturar um bando de 15 putos e adolescentes bárbaros que começaram a mexer nas malas, a tirar comida sem pedir e parando a 15 cm de nós como se fossemos invisíveis. A situação ficou muito tensa, ainda levei um pontapé de um dos putos, e só resolvemos o assunto à pedrada (não para assustar mas a sério, para doer mesmo), gritando-lhes de forma agressiva e por fim caminhando na direcção dos pescadores sempre com um grande calhau na mão. De volta à companhia segura dos pescadores, fomos perguntar ao mais velho deles se sempre cumpriria a promessa de nos levar no seu carro até ao Castelo de Van. Assim fez, feliz da vida, levou-nos até à entrada e voltou para trás a sorrir!
Depois do Lago Van e do Castelo de Van, estava na hora de ver a cidade de Van. Fomos à boleia (nada de novo!) e saímos mesmo no centro, perto de uns jardins bonitos. Para eles nos encaminhávamos quando um sorridente senhor meteu conversa connosco. Vendia Çiğ Köfte na rua e ofereceu-nos alguns em troca de o fotografar! Imagine-se! E não foi tudo, feliz por falar com um português e uma francesa num turco primitivo, convidou-nos para subir à esplanada do restaurante no 2º andar onde perguntou o que queríamos tomar. Pedimos 2 cafés, acabámos por receber 2 cafés, 2 chás, 2 garrafas de água e uma refeição de Çiğ Köfte, tudo oferta da casa. Vale a pena viajar na Turquia!
Ao fim da tarde recomeçámos a boleia na direcção de Doğubeyazıt. Queríamos ir apenas até a Muradye, onde existem umas cascatas famosas na região, mas não conseguimos lá chegar. A primeira boleia avançou-nos uns quilómetros até à saída da cidade de Van, numa zona industrial. Aí nem tivemos tempo de respirar, saímos de um carro e entrámos logo noutro, num carro que parou sem nós sequer pedirmos. Mais, até estávamos de costas a despedirmo-nos da primeira boleia! Dentro seguia Roger Can, um curdo que trabalha como segurança na sede da divisão regional da TRT (Rádio Televisão Turca) de Van. De lembrar que a TRT é a grande fonte de propaganda política na Turquia, grande formador de opiniões, manifestamente anti-curdos! Para tornar o quadro ainda mais louco, Roger Can confessou-nos que nas férias costuma ir para o Curdistão Sírio, onde combate pelas populações curdas atacadas pelos “rebeldes sírios”, os tais que não são nem rebeldes nem sírios e que são patrocinados pelo ocidente (Turquia inclusive) para provocar o caos e o horror na Síria!

jantar com os seguranças da TRT Van

Roger Can levou-nos até ao seu local de trabalho, o posto de controlo da sede da TRT, onde nos apresentou o seu colega de turno também curdo. Estamos no período do Ramadão, portanto tivemos de esperar ouvir “Alá qualquer coisa” do minarete mais perto para ter ordem para comer, mas valeu a pena! Ah que montanha de salada, pizza turca e pide, parece que queriam nos rebentar com tanta comida! Depois do jantar, tivemos direito a banho de água quente e sim, um quarto onde dormir! Mais uma noite sem precisar da tenda que anda sempre às costas!

01.07.2014 – 27º dia de viagem

De manhã tomámos o pequeno-almoço com Roger Can, que nos deu ainda de presente um saco cheio de pimentos, pepinos e queijo branco. Minutos depois fomos os 3 à boleia num mini-autocarro até à estrada principal. Roger foi para a cidade de Van, nós recomeçámos a boleia em direcção a Muradye. Depois de uma noite hospedados por membros do PKK, apanhámos uma boleia de um policia turco e sua esposa, para variar. A terceira boleia foi de um camião de cimento, cujo condutor teve a gentileza de sair da estrada principal e deixar-nos mesmo em frente às cascatas de Muradye. À entrada o logro do costume, 2 adolescentes com uma espécie de bilhetes, cobrando 3 liras (1€) por pessoa para passar a ponte e chegar às cascatas! Não faltava mais nada! Dissemos que não tínhamos dinheiro e seguimos. os 2 trafulhas insistiram e foram atrás de nós. Como avistei do outro lado da ponte um café-restaurante, disse que não pagava porque não ia às cascatas mas sim ao café. Um dos putos, fino, responde-me: “Então não tens dinheiro e vais ao café?”. Pois, teve bem. Disse que sim, que ia ao café sem dinheiro, virámos as costas aos putos e atravessámos a ponte. Tiveram de desistir, menos 2 euros gamados!

Cascatas de Muradye

Do outro lado da ponte… mais uma desilusão. Tal como o Lago Van, as cascatas estão sujas e água está poluída, cheirando mal quando nos aproximamos dela. Ahh, e nós a morrer com o calor sufocante do meio-dia, sonhando com um banho/jacuzzi refrescante debaixo das quedas de águas. Não pôde ser. Ficámos no cimo da falésia, num banco do restaurante por debaixo de uma árvores, à sombra, a descansar e pensar na vida… E não tínhamos de facto muito dinheiro, quase 1 euro que não deu nem para comprar um café (chulos!), teve de ser 2 chás, para podermos ficar ali sentados. E a casa de banho ao lado também se pagava, tive de andar a fugir do puto que cobrava as descargas orgânicas, eheh!
Nós não pagamos a entrada, pois claro, não fazia sentido nenhum nem era uma entrada para lado nenhum, apenas uma ponte para passar para o outro lado do rio, e ainda bem. Imagine-se, pagar para ficar a ver ao longe um cascata a cheirar a podre. Mas há quem pague! 20 minutos de pois apareceu uma camioneta turística da qual desceram 23 turistas. Jackpot para os putos e família, 23 euros num minuto, sem produzir riqueza, espetando o golpe à turistada. Foram todas beber café (a 1 euro, no meio do nada!), mais 23 euros! Depois foram à casa de banho, 1 lira turca por pessoa! Ah, como se vive bem por aqui à beira de uma queda de água imunda e de uma outra queda de guito!
Depois de quase adormecermos e de almoçarmos o pão, queijo e legumes herdados de manhã, voltámos muito vagarosamente à estrada para pedir boleia. Ou melhor, ainda antes de chegar à estrada mas já com o braço esticado, vimos espantados um carro a alta velocidade para 200 metros à frente para nos recolher. Com a sonolência do almoço e do calor, no tempo que levámos a chegar ao carro parado, uma outra carrinha parou para nos dar boleia (embora não tenhamos pedido). Não aceitámos, preferimos andar mais uns metros, certo de poder avançar bem mas rápido com o carro. E sim, andámos a 150 km/h, mas não fomos longe, até à cidade Çaldiran umas dezenas de quilómetros à frente. Em Çaldiran apanhámos por fim boleia para Doğubeyazıt, de um amigo do nosso amigo Mehmet que nos deixou à porta da sua agência (nossa casa temporária).
À noite fomos jantar a casa da família de Mahmut, o jovem que no dia anterior nos havia dado boleia e nos dissera para lhe telefonar quando voltássemos a Doğubeyazıt. Muito chás, bombons iranianos e jantar (só depois de alá deixar!). A família de Mahmut é das mais conservadoras que encontrámos na viagem: o pai é perito no Alcorão e ensina religião, enquanto que uma das irmãs acabou agora o curso universitário para ensinar religião também. A irmã não me deu a mão para nos cumprimentarmos, por estarmos no período do Ramadão, e o mesmo fez o pai de Mahmut a Claire! E mais, Claire, de camisa e calças justas, foi “obrigada” a aceitar (e vestir) uma saia que tapava inclusive os pés! Que paranóia! Senão, muita gentil e hospitaleira toda a família de Mahmut.
Por volta das 22h fomos da casa tradicional de seu pai com animais e árvores de fruta, para o seu apartamento ultra-moderno no 5º andar de um prédio no centro de Doğubeyazıt. Ficámos a conhecer a sua mulher, muito querida e sorridente, e o seu bebé de 2 meses. Ah, como fomos mimados por esta jovem senhora com um bola/gelado que preparou na hora, com café, com chocolate, com frutos-secos, com chá… e no final, antes de partirmos, ainda nos preparou uma caixinha com bombons tradicionais e 2 lembranças com o nome da sua bebé! Muito boa gente, sim, sem dúvida!

Doğubayazıt VI, Turkey, 2014

bulgaria

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Location: 

SILK ROAD TRIP #22 – Living in Doğubeyazıt (IV)

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PORTUGUÊS:

Vivendo em Doğubeyazıt – Parte 4

29.06.2014 – 25º dia de viagem

A manhã começou como uma divertida conversa (para mim) com o tal turco que tem medo dos curdos e que no entanto vem passear de bicicleta para aqui, onde foi hospedado à grande por curdos vítimas do terrorismo de estado turco. Bom moço, sem dúvida, mas vítima da enorme lavagem cerebral nacionalista. Perante todo o que lhe disse, mais ou menos ou que escrevi no artigo anterior, só me sabe responder incoerentemente que se posiciona politicamente contra os curdos pois estes chegaram as estas terras à força, trazendo violência e terror. Que piada. Respondi-lhe perguntando que país, que povo, que nação não fez o mesmo? Como foi criado o Brasil pelos portugueses senão pela escravização, tortura e morte? E os EUA? E todos os outros países? Ahhh, e a Turquia? Se os curdos chegaram a estas terras com violência, terá sido há milhares de anos. Os turcos apenas à 500 anos com igual terror e violência! Brincamos? Coitado, fez-me pena ver esta muito boa pessoa sem resposta, clara vítima de ridículos clichés anti-curdo repetidos sem cessar aos seus ouvidos.

Claire e eu decidimos ir passear de novo até ao Palácio de Ishak Paça, não sem antes ir devolver a chave de fendas emprestada. A ideia era ir a pé, mas as boleias aparecem do nada, mesmo sem que as procuremos, de modos que a maior parte do percurso fizemos num autocarro que nos levou ao cimo do monte de graça. Para baixo igual, um carro de 2 técnicos da rádio e televisão turca que vinham de reparar a antena de retransmissão por detrás de Ishak Paça levaram-nos para baixo. Não fomos até à cidade. Pedimos para nos deixarem 2 km antes junto a Yunus, a nossa amiga que andava pastar as suas ovelhas. Coversámos um pouco e aceitámos o convite para jantar em sua casa à noite. Dali fomos até ao Restaurante Lalezar, uns metros mais abaixo, para visitar o dono do grandioso estabelecimento, um nosso conhecido e amigo de Mehmet, que nos ofereceu chás e cafés, e que nos fez saber que era familiar da pastora Yunus!

De volta a casa, mais viajantes! Uma alemã muito simpática e poliglota, que ficou na nossa companhia uma noite, e uma iraniano treslocada que desapareceu meia hora depois de termos chegado!

Tal como combinado, por volta das 20h30 saímos de casa para ir ao encontro de Yunus e da sua família. Numa cidade praticamente sem iluminação nocturna e com os subúrbios 100% *as escuras, foi um grande filme encontrar a casa. Avançámos à boleia até junto ao bairro que Yunus nos falara, mas uma vez chegados, não sabíamos como dar com a casa. Andámos às voltas, fomos perguntando pela Yunus a quem passava na rua (pelos vistos existem dezenas de Yunuses na zona) e, pouco a pouco, fomos ter à casa, sem ter a certeza de estármos no sítio certo. Falta bater à porta ou chamar pela pastora, no entanto dois cães enormes e soltos ladrando para nós na escuridão fizeram-nos hesitar. Tão perto e tão longe, acabámos por caminhar passo a passo até à entrada e batemos à porta. Nada. Gritámos pelo nome Yunus. Também nada. Vimo-nos obrigados a espreitar e bater nas janelas com luz! Aleluia, a insistência deu os seus frutos e da casa saiu uma Yunus muito assustada com uma laterna na mão. Em poucos minutos montou-se uma sala de jantar no jardim, com a ajuda dos 2 irmãos de 11 e 12 anos, enquanto a mãe aqueceu e preparou comida enquanto o diabo esfregou um olho! A comida era maravilhosa, mas ainda mais foi aa alegria com que a sua mãe nos acolheu em sua casa. Ao invés de Yunus e os 2 irmãos, a sua mãe é uma fala-barato, eufórica pelo enorme prazer de ter estrangeiros a jantar em sua casa. Contou-nos que desde há 17 anos recebe pelo menos uma visita por ano des estrangeiros viajantes como nós! Confessa que adora estes encontros fortuitos e afirma se encontrarem por entre os mais belos momentos da sua vida. Não admira, a querida senhora não para de falar um segundo e em quase tem 3 filhos que mais parecem surdos-mudos! Ahah! Era já muito tarde quando fomos embora, para desconsolo da mãe de Yunus que nos abraçou e beijou com ternura, repetindo eufórica uma miríade de diferente formas de despedida em turco e curdo, implorando pelo meio para que voltássemos a visitá-la um dia! Que experiência intensa, dificilmente olvidável… 🙂

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #21 – Living in Doğubeyazıt (III)

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PORTUGUÊS:

Vivendo em Doğubeyazıt – Parte3

28.06.2014 – 24º dia de viagem

O terceiro dia em Doğubeyazıt foi preenchido com vários encontros com membros do PKK, apoiantes do PKK e vítimas da destruição programa das vilas e cidades curdas por parte das forças militares turcas. O nosso amigo e anfitrião Mehmet, por exemplo, viu a sua casa arrasada por tanques turcos inúmeras vezes, até que abandonou o seu terreno na colina e construiu a sua casa actual no centro de Doğubeyazıt. Um irmão mais velho de Mehmet foi um de muitos curdos que morreram a combater pelo PKK contras as forças militares turcas, já lá vão 21 anos. O dia foi portanto em grande parte ocupado a falar de política e história com estas gentes curdas que têm os 2 temas sempre debaixo da língua, ao contrário do nosso belo país onde o desinteresse é generalizado e o obediência aos media nacionais é quase total.

Metin Arik, irmão do nosso amigo Mehmet Arik, morto em combate

Uma vez mais, vou meter os EUA ao barulho. A quem anda desatento, convêm informar que os EUA formam desde os anos 50 guerrilhas ultra-secretas no seio das forças armadas dos seus países aliados da NATO. Na maior parte dos casos nem sequer os membros do governo do país em questão estão a par da existência dessas forças especiais de intervenção que foram criadas, em teoria, para despelotar uma contra-revolução em caso de ocupação da Europa e Turquia pela URSS durante o período da guerra fria. Em 1990 a URSS começou a desmoronar-se e a verdade veio ao de cima pela boca de um ex-governante italiano, o qual expôs publicamente a versão italiana desses exércitos ultra-secretos que dava pelo nome de Gladio. Ao contrário das suas premissas, os grupos “Gladio” (como ficaram a ser conhecidos) na Europa desencadearam o terror que prometia evitar, sobretudo na Itália, França, Bélgica e Alemanha. Na Itália, por exemplo, cometeram inúmeros ataques sangrentos, matando e ferido centenas de cidadãos italianos, para depois culpar as Brigadas Vermelhas, de forma a descredibilizar e destruir as forças comunistas do país. No resto da Europa fizeram mais do mesmo, e sempre com muito sucesso, ao ponto de hoje já não haver na Europa senão centro-direitas e centro-esquerdas que são duas faces da mesma moeda: a Ditadura Económica Mundial!

Na Turquia dos anos 60 as coisas passaram-se duma forma um pouco diferente. Os 2 grupos “Gladio” turcos trabalharam sobretudo em atentados sangrentos sobre o povo turco, para culpar em seguida a minoria curda, numa das muitas medidas implementadas com o intuíto de fazer desaparecer os curdos da Turquia. Nessa altura (anos 60) não haviam organizações de guerrilha (ou terroristas, depende do ponto de vista)  curdas nem tampouco ambições nacionalistas ou independentistas por parte da população curda. Esse “vírus” foi introduzido pelo Gladio turco através das referidas “operações de bandeira falsa” e sobretudo pelas decisões do governo central que implementou uma política de genocídio cultural: nessa altura a população curda foi proíbida de falar curdo, o ensino da língua curda foi banido, tradições, danças, costumes curdos foram reprimidos, e por aí fora. É por estas razões que, na minha modesta opinião, foi a prepotência e chauvinismo dos poderes turcos que despertaram a população curda para se verem como um povo (nação) distinto!  Foi o nacionalismo agressivo turco que despertou os curdos para o conceito de independência. Foi o terrorismo do Gladio e posteriormente das Forças Armadas Turcas que criaram dentro da população curda a necessidade de criar as suas guerrilhas (PKK é o nome mais conhecido), com as quais passaram a responder também com terror. Em resumo, se deixassem curdos falar curdo, aprender curdo, comportarem-se culturalmente enquanto curdos e não os acusassem de ter cometido os primeiros actos terroristas nos anos 60 (obra dos Gladio turcos), turcos e curdos poderiam viver em paz e harmonia na sua diversidade cultural e linguística, com fazem muitos outros países do planeta nos quais coabitam 2 ou mais povos. Ao querer criar uma Turquia apenas para turcos, uma ideia absurda que implicaria cometer um genocídio mais cedo ou mais tarde (daí a necessidade de acusar curdos de cometer os primeiros ataques terroristas), sobretudo numa terra em que os turcos foram os últimos a chegar… apenas causou sofrimento, morte e sentimentos de vinganças entre dois povos (turcos e curdos) que, em condições normais, são dos mais simpáticos, hospitaleiros e altruístas que o nosso planeta contém… é a triste realidade!

Página do blog Pensamentos Nómadas com vídeos e textos sobre os “Gládio”:

Livro de Daniel Ganser sobre os “Gládio”, em inglês:

De volta às estórias de viagem: o dia passou rápido e era já tarde quando fui ao barbeiro com Claire e o nosso amigo Armağan que ofereceu-me um tratamento completo à cara: corte de cabelo, corte da barba, lavagem, massagem, limpeza de orelhas, perfume, um monte de produtos, … eu sei lá, passei quase uma hora nas mãos do genial barbeiro! Ao caminhar de regresso a casa fomos obrigados a aceitar um saco de frutas oferecidos por um dos nossos novos amigos cuja frutaria se encontra na mesma rua que a barbearia. Os 4 franceses tinham entretanto partido rumo ao Irão.

No barbeiro

Saí de casa com Claire para comprar uma mini chave de fendas, não conseguimos, o dono da loja emprestou-nos uma! Hehe! Ao voltar a casa havia 2 novo hóspedes, um turco com medo de curdos (Kağan) e um brasileiro super contente por poder falar português pela primeira vez em quase 2 meses (Felipe)!

Depois de umas trocas de ideias sobre a Turquia e o Curdistão Turco com Kağan e Felipe, saímos com Armağan em direcção à rua do barbeiro e da frutaria do nosso amigo, onde todos dias fazemos serões de chá e conversa! Aqui ficam alguns pensamentos da pessoa mais inteligente que encontrei na cidade, o jovem homem chamado Zafer:

  • ÁGUA PRIVADA: em Doğubeyazıt toda a gente se queixa de ter apenas 5h por dia de água nas torneiras, quando há! No entanto toda a gente a desperdiça a regar o chão imundo até a água acabar, em vez de limpá-lo, e em vez de poupar a água para verdadeiras necessidades. O governo turco, que desperdiça fortunas em megalomanias no ocidente turco, aqui não gasta um tostão. Agora veio a máfia da UE, com uns fundos manhosos, estabelecer água canalizada em parceria com empresas privadas, pois claro. Assim que estiver pronto o novo sistema de água “oferecido” pela UE, a população nunca mais terá 5h/dia de água praticamente gratuíta. Passará antes a ter 24h/dia de água canalizada que nunca poderão pagar, dados os preços exorbitantes que enriqueceram a parte privada deste “mecenato” público-privado… Enfim, dinheiro dos contribuintes europeus e contas de água astronómicas em Doğubeyazıt para enriquecer a omnipresente Ditadura Económica Mundial; [Pegue-se no exemplo da Bolívia, cujo governo na altura vendeu A Àgua Toda a uma empresa dos EUA, que cobrava inclusive pela da água chuva recolhida pelas populações empobrecidas. No que é que deu? Revolução popular e eleição do primeiro nativo à presidência do país, Evo Morales. Fico à espera para ver a reacção do povo de Doğubeyazıt.]
  • ONG PATERNALISTA: Há uns anos atrás uma ONG italiana queria a todo custo construir um infantário em Doğubeyazıt, sem querer ouvir primeiro os locais e tentar entender as suas necessidades e costumes. Perante o arrogante paternalismo da ONG, o presidente da câmara de Doğubeyazıt criou propositadamente entraves à obra; Um dia Zafer, que trabalhava como tradutor de turco para inglês na câmara local, teve uma conversa com umas das responsáveis italianas do projecto, a qual amargurada lhe perguntou “porque raio os curdos não deixam a nossa ONG os ajudar?”. Zafer respondeu perguntando: “Uma larangeira é um óptimo complemento para um jardim de uma casa. Posso ir a tua casa na Itália, escavar um buraco no jardim e lá meter uma larangeira?”. A italiana respondeu: “Sem a minha autorização não, eu tenho de decidir se gosto ou não da ideia.” Voilá o que Zafer queria ouvir da italiana.
  • O JAPONÊS INGÉNUO: sim, o título é quase um pleonasmo! Andava um dia Zafer a passear no monte quando deu com um japonês tirando fotos com a sua tele-objectiva. Observou-o longamente, dando tempo necessário para o outro tirar muitass dezenas de fotos. Por fim aproximou-se, apresentou-se e explicou (muito sério) ao japonês que cada foto tirada custava 3 dólares e que deviam ser pagos de imediato. O japonês aborrecido desculpou-se, jurando que não sabia da regra. “Tarde de mais, agora tens de pagar. Quantas fotos tiraste?” perguntou Zafer. “Apenas 3 fotos, juro”. “Ah, 3 fotos, não acredito, foram muito mais”, insistiu o nosso amigo. O japonês voltou a repetir a versão de 3 fotos. “Então tudo bem, deixa-me ver a máquina e se forem 3 fotos pagas-me os 9 dólares devidos”. Encostado à parede, o japonês hesita em mostrar a máquina. Zafer pergunta então: “Não terão sido antes 10 fotos? Pagas os 30 dólares e nem preciso de ver a câmara?” De imediato o japonês passou o dinheiro, contente por não ter de mostrar as dezenas de fotos tiradas. “que fortuna acabei de poupar, que sorte!” terá pensado. Zafer agradeceu, deu de volta os 30 dólares ao japonês, disse-lhe “era uma piada” e foi embora traquilo, deixando o japonês de boca aberta por um longo período…
  • OCIDENTE CIVILIZADO: durante as 2 semanas que passou em França há uns anos vivenciou algumas experiências que o fizeram jurar a si prórprio nunca mais lá voltar. E confessa que o enervam todos os turistas que após falarem com ele (Zafer é fluente em inglês), tentam o convencer a fugir deste “fim do mundo” e fugir para a Europa “civilizada”. “Civilizada”? Então que me expliquem o que vi na Europa:

o    Estavam os meus anfitriões em Paris a ouvir música alta à noite e bateu-lhes à porta a Polícia, em seguimento de uma queixa de um vizinho. Por que razão os “civilizados” franceses não chegaram a um acordo “civilizado” entre vizinhos, estipular um meio termo conveniente às duas partes, em vez de criar problemas com Polícia?

o    Por que razão os idosos do “mundo civilizado” morrem em solidão e o resto dos seus “civilizados” amigos, familiares e vizinhos só descobrem a sua morte 2 semanas depois devido ao cheiro a carne em putrefacção?

o    E por aí fora, numa lista que cala qualquer um que venha dizer a este senhor que as gentes da Europa são mais civilizados que as gentes locais.

  • CAPITALISMO 1: Convicto no seu anti-capitalismo, enfureceu-se no dia em que quis comprar uma casa a pronto pagamento (avaliada em 85.000 liras) e o dono lhe respondeu que com empréstimo do banco o preço era 85.000, mas que a pronto pagamento era 95.000! Compremetido com o banco local, o agiota queria ver Zafer pagar durante dezenas de anos prestações que elevariam o preço final da casa para o dobro, lucro do banco claro está, mas que em parte viria parar às suas mãos. Zafer mandou-os à merda e pagou as 95.000 liras em cash, para choque da vizinhança que o criticou por mandar fora 10.000 liras! Ah, que moca!
  • CAPITALISMO 2: A Zafer enerva-lhe esta paranóia de pedirem fortunas de centenas de milhares de liras pela venda de uma loja no centro da cidade de Doğubeyazıt onde nem a vender fruta durante 10 vidas, o comprador jamais conseguirá saldar a absurda dívida. E os bancos aqui fazem empréstimos do género da noite para o dia!  Por outro lado, com essa fortuna Zafer garante que poderia comprar um terreno vazio e lá construir uma nova vila onde se produziria riqueza suficiente para pagar o tal empréstimo. Um dia lembrou-se de ir roer a cabeça aos bancários locais, apresentando-lhes esse projecto-mentira de uma nova vila com agricultura e indústria, produtora de riqueza que asseguraria ao banco o retorno do dinheiro emprestado. Tudo pelo mesmo preço de uma loja no centro de Doğubeyazıt. Toda a gente se recusou emprestar-lhe dinheiro, como previra. Para concluir Zafer comparou esta estória com a mais real história dos sub-prime nos EUA que conduziu o planeta a uma crise global. “O capitalismo apenas funciona aprisionando e ameaçando as pessoas com uma dívida impagável, de forma a que trabalhem até morrer e que consumem também lá pelo meio, mas sem que nunca vivam as suas vidas! Que apenas sobrevivam ao passar dos dias.” Exactamente, concordo e já tenho dito o mesmo…

Ao voltar para casa trouxémos mais um saco de fruta na mão, oferecido pelo vendedor nosso amigo.

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #20 – Living in Doğubeyazıt (II)

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Vivendo em Doğubeyazıt – Parte 2

27.06.2014 – 23º dia de viagem

Na segunda manhã em Doğubeyazıt voltámos a tomar o pequeno-almoço no hotel Ararat, de graça claro está, oferecido desta vez pelo filho do dono do estabelecimento. De barriga cheia fomos dar uma volta pela cidade com Mehmet Arık, que conhece toda a gente nesta cidade de 80.000 habitantes em que, segundo ele, metade da população é da sua família. Exagera, sim, mas não fica longe da verdade! Ahaha! É quase claustrofóbico, “a raposa”, alcunha pela qual Mehmet é conhecido na cidade, cumprimenta ou é cumprimentado por alguém a cada 10 segundos. Que desafio tentar atravessar uma rua do início ao fim na sua companhia! Quis nos apresentar ao presidente da câmara da cidade e inclusive levou-nos à entrada do gabinete mas, com tanta gente à espera para tratar de assuntos importantes (imaginámos nós), pedimos ao raposa para deixar a visita para mais tarde.

Pelas ruas de Doğubeyazıt vêem-se muitas vítimas do conflito internacional infligido à Síria, sobretudo mulheres e crianças desse país pedindo esmola, sujos, vestidos com farrapos, com caras de desespero e olhares vazios. Também se encontram parte daqueles que provocam esta miséria: mercenários afegãos que entram na Turquia pela fronteira aqui ao lado e que passam uns dias na cidade antes de rumar a Istambul, onde recebem dinheiro e ordem de marcha para a base militar turca na qual serão treinados para provocar o terror na Síria disfarçados de “rebeldes” e “freedom fighters”. Os turcos, povo bom mas muito controlado pela propaganda nacional militarista e pela deificação de Ata Türk, parecem não fazer a mínima ideia que o seu país, a mando dos EUA, é o principal campo de treinos do “terrorismo islâmico” que tem transformado a Síria num inferno. Pelo contrário, os curdos da Turquia sabem-no bem e o assunto é tema recorrente de conversas de café.

De volta à agência de Mehmet fomos encontrar mais um japonês de Osaka, portanto o segundo em 2 dias proveniente dessa cidade. Não era viajante, daqueles que Mehmet ajuda, mas sim turista com dinheiro, a quem “a raposa” conseguiu vender um pack de escalada ao monte Ararat!

Quanto a viajantes, Mehmet esperava ajudar e albergar 2 casais franceses hoje, mas não se conseguia entender com eles por telefone. Passou-me o telemóvel e acabei por ser eu a dar as indicações e marcar o encontro com eles junto à agência. Enquanto esperava pelos 4 aventureiros, entreti-me a escrever o escritório… 🙂 (blog de 2 dos franceses: chafortwo.fr)

A meio da tarde, Mehmet preparou-nos uma pratada de peixe, seguida de melancia, e uma barrigada de riso com as mentiras e partidas que Mehmet infligiu ao japonês seu cliente. Os japoneses tem fama de ser muito ingénuos e de não perceberem o humor ocidental. Este foi o exemplo perfeito, acreditando inclusive que Mehmet seria um importante Paça, apenas por ter visto uma foto de Mehmet mascarado! Ah, sim, que barrigada de riso, e o raio do rapaz, nem connosco a desmentir as trapalhadas de Mehmet, deixava de acreditar nelas!

Depois da petiscada e do riso, decidimos dar uma volta pela cidade, eu e Claire. Como era de esperar, bebemos chás um pouco por todo lado, oferecidos pelos locais, por entre conversas de política e história, encontros com crianças curiosas e até numa loja onde fomos comprar gelados. Também tivemos a sorte de receber frutas e legumes num mercado de rua no qual fizemos amizade com um grupo de homens que  a partir daí passámos a encontrar diariamente no centro da cidade, à noite, para beber os chás (à borla, sim) e trocar umas ideias em turco rudimentar.

A noite também foi interessante. Começámos por ajudar Armağan Arık, filho da raposa e nosso amigo, a instalar o windows num PC. Para nos agradecer, convidou-nos a sair com ele e levou-nos até à Pasajı, uma espécie de shopping ao estilo local. Sem se conseguir controlar, Armağan mimou-nos com vários presentes, umas canetas da Índia, pulseiras e um saco de bombons. Só não foi mais porque não deixámos! Ah, o louco! De volta a casa, ou melhor, à agência turística de Mehmet, entretemo-nos com Armağan e um amigo numa aula informal de língua turca muito divertida.

Para acabar bem o dia, Claire e eu, com fome, saímos à rua para “dar o golpe”. Como Mehmet não estava connosco, ninguém havia preparado jantar, de forma que tivemos de ir desencantar “matéria orgânica” algures nesta cidade em que os preços da comida de restaurante são muito elevados devido à constante passagem de viajantes rumo ao monte Ararat. Decididos a não gastar muito dinheiro, para manter a nossa média diária em Doğubeyazıt, pegámos em apenas 7 liras (2,40€), entrámos num restaurante e perguntámos o que poderíamos comprar com aquele dinheiro. Primeiro nada (de pratos servidos no restaurante) afirmou o empregado, antes de se lembrar que tinha comida que sobrara do dia, guardada em caixas de plástico para poderem lavar as panelas. Pelas 7 liras queria nos vender uma parte de uma dessas caixas, mas Claire insistiu e o senhor acabou por dar uma inteira. Dentro tinha uma monte de carne de galinha guisada com legumes e muito picante. Delicioso festim! E era tanta a comida que durou para 2 dias! Hehe!

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #19 – Living in Doğubeyazıt (I)

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Vivendo em Doğubeyazıt – Parte 1

26.06.2014 – 22º dia de viagem

 

No primeiro dia em Doğubeyazıt começámos por nada fazer, dormindo a manhã toda, para recuperar da viagem. Eram 2 da tarde quando ganhámos coragem para ir tomar o pequeno-almoço no restaurante a céu aberto do Hotel Ararat! Mehmet Arık, o amigo/2ºpai de Claire veio ter connosco enquanto comiamos, eufórico para ouvir novidades de Claire e saber se tínhamos dormido bem no quarto de hotel que nos pagou. Antes de irmos embora do restaurante tivemos a feliz oportunidade de encontrar o primeiro estrangeiro, um japonês muito viajado, muito interessante, com muitas estórias para contar. Vale a pena andar na estrada só para encontrar gente assim! 🙂

Ao sair do hotel, tive o primeiro impacto do extremo bom acolhimento local: toda a gente diz “olá ou “boa tarde” e sorri, boa parte convida de imediato a beber uns chás! Ah, como é social a vida por estas paragens! Íamos para a agência de turismo de Mehmet, a nossa nova casa durante os próximos dias. Como Claire é amiga de longa data de Mehmet, o imponente escritório estava reservado para nós, onde instalámos no chão uma cama ao estilo local, e onde durante o dia me inspiro nas paredes e secretária plenas de história para escrever este blog.

Mehmet é um senhor de 60 anos, poliglota, muito viajado, faz todos os trabalhos possíveis, e conhece toda a gente em todo o lado na Turquia e países vizinhos. Uma mina infindável de inspiradoras estórias de aventuras, da Mongólia à Europa! Para se ter uma ideia, é amigo de Abas Kiarostami e Bahman Ghobadi, 2 dos realizadores mais conceituados do Irão, cuja obra cinematográfica eu muito admiro! Que luxo!

Por incrível que pareça, e embora ganhe a sua vida sobretudo com o turismo (escaladas guiadas ao monte Ararat com aventureiros estrangeiros), Mehmet passa o tempo à varanda do escritório observando a rua, na ânsia de encontrar viajantes de bicicleta a quem sempre oferece dormida gratuita no grande quarto de visitas da agência, assim como água para tomar banho. Hoje (26.06.2014), por exemplo, está a hospedar 1 alemão e 4 suecos, todos viajando de bicicleta. (blog dos suecos: happytour.se)

“que alegria ser turco”

Quase ao fim da tarde pegámos nas biclicletas de um sueco e um alemão e subimos a rua íngreme (e em péssimo estado) que liga a cidade de Doğubeyazıt à grande atracção histórica: o Palácio de Ishak Paça. Pelo caminho tive a primeira oportunidade para dar de caras com o nacionalismo militar opressivo da Turquia sob a minoria curda que é maioritária na região. Acredite quem quiser mas, em plena cidade onde 99% dos habitantes são curdos, existe várias bases militares turcas, enormes! É claustrofóbico passar numa rua banal, de comércio por exemplo, e se encontrar cercado por quartéis, postos de vigia e militares armados até aos dentes!

É ridículo o dinheiro que a Turquia gasta para mostrar aos curdos que são curdos e não turcos, que é o caminho mais curto para convencer curdos a defender ideias independentistas e não ao contrário… um grande tiro no pé da Turquia por estas paragens. Veja-se, por exemplo os textos escritos a letras gigantes, com pedras, nos montes em volta desta cidade curda: “Que alegria ser turco”, “acima de tudo uma nação [turca]”. E mais, num país (Turquia) em que por todo o lado se encontram magníficas pistas de asfalto que atravessam e ligam as principais cidades, por que raio o asfalto teima em não chegar a Doğubeyazıt e outras cidades curdas. Na minha opinião, não será fazendo curdos sentirem-se diferentes que a Turquia conseguirá convencer a nação curda a permanecer de forma pacífica integrada na sociedade turca e no estado da Turquia…

Yunus, a nossa amiga pastora

Bom, a caminho do palácio de Ishak Paça tivemos o primeiro grande encontro de Doğubeyazıt, quando Claire parou para falar com Yunus, uma jovem pastora de cabelo rapado que tenta se fazer passar por rapaz, mas que a nós não conseguiu enganar. Acontece muito por estas paragens (sobretudo nas populações rurais) mulheres verem-se obrigadas a disfarçar-se de homem para poder sustentar uma família na qual escaceiem “machos”. Yunus, de uma extrema timidez e simpatia, convidou-nos a vir jantar à sua casa quando pudéssemos ou quiséssemos. Prometemos que o faríamos e continuámos o suicídio de subir o monte de bicicleta rumo ao palácio. Para nossa grande alegria um mini-autocarro parou para nos dar boleia (sim, com as bicicletas) até ao cimo! Uma vez chegados ao palácio, o condutor pediu-nos para tirar umas fotografias com o seu amado autocarro fazendo de cenário, e convidou-nos a vir jantar a sua casa quando quiséssemos! Ahhh, 2 convites para encher a barriga em menos de 10 minutos! É isto Doğubeyazıt!

À noite Mehmet, que também é um excelente cozinheiro, preparou uma baquente que ofereceu a nós, aos suecos e ao alemão! Começou mesmo bem a nossa estadia por Doğubeyazıt!!!

a jantarada internacional

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #18 – Istanbul to Doğubeyazıt in 3 days (III)

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Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias – Parte 3

25.06.2014 – 21º dia de viagem

Istambul a Doğubeyazıt
Istambul a Doğubeyazıt
Köme

Mais um dia na estrada mais 6 boleias à nossa espera. A primeira delas na saída sul de Trabzon, depois de termos tomado umas sopas turcas para animar o corpo mal-dormido e muito moído das 12 horas passadas dentro do camião. Foi uma viagem curta de 25 km até à pequena cidade de Maçka, mas bem útil pois tirou-nos rapidamente de Trabzon, deixando-nos na rota certa e longe da confusão urbana. Em Maçka a boleia “correu mal”. 10 minutos passados de braço esticado e ninguém parou para nos levar. Decidimos pôr as malas às costas e avançar um pouco a pé, o que não veio acontecer. Já de mochilas às costas e de costas para a estrada, um carro parou e o seu condutor perguntou se precisávamos de boleia! Voilá, afinal nem era preciso esticar o braço!

Com esta nova boleia, de um senhor muito bem educado e muito bem vestido que trabalha para uma empresa japonesa, tivemos direito a 3 paragens para tirar fotos em sítios magníficos na cadeia montanhosa da região e um saco de Köme delicioso (doçaria regional tradicional), além de termos avançado 80 km até Gümüşhane.

A terceira e mais curta boleia do dia foram os 3 km quilómetros atravessados numa velha carrinha, de Gümüşhane até a uma bomba de combustível no cruzamento da estrada que seguia para leste. Boleia curta mas eficiente!

Almoço no chão com o velhinho

Dez segundos depois de sair da carrinha, entrámos numa outra. O condutor era um senhor já velho mas ainda cheio de vida,  divertido, sorridente, e também muito generoso. Poucos minutos depois de termos entrado na carrinha, o velhinho estacionou-a junto a uma fonte de água e ofereceu-nos um almoço de pão, queijo fresco, azeitonas e melão! Só produtos caseiros e plenos de sabor! Que satisfação, para nós que estávamos com fome e sede. Que alegria para o senhor que nos confessou ser a partilha da sua comida com outras pessoas desconhecidas a melhor satisfação que poderia tirar dela, e que a comida sabia melhor quando partilhada. Gente boa não falta por estes terras… Depois de almoçar aproveitámos a fonte para encher as nossas garrafas vazias com água fresca e voltámos à estrada, observando maravilhados o crescendo de cores e formas desconhecidas para nossos olhos e tão abundantes nas montanhas desta região. Era o prenúncio do que ainda viria de melhor, lá nos confins orientais da Turquia…

O simpático velhinho levou-nos até Bayburt, cidade na qual passámos de uma carrinha para um camião TIR, o segundo da viagem que transportava combustíveis. Devido à mercadoria transportada, e apesar das óptimas vias e do camião novo, desperdiçámos imenso tempo chegando a Erzurum muito mais tarde do que imagináramos. Eram quase 5 da tarde quando o condutor nos deixou numa estação de combustível à entrada desta cidade, havendo ainda em teoria 300 km de estrada fazer até Doğubayazıt! Apanhando uma boleia logo de seguida e seguindo a uma média de 80 km/h ainda era possível chegar cedo, pouco depois do sol se por, de forma que permanecemos positivos.

Aproveitámos para fazer compras na estação de serviço e voltámos ao nosso trabalho: a boleia, que apareceu poucos minutos depois… De início pareceu-nos muito interessante a bolei arranjada: o dono da viatura conduzia-a a mais de 100 km/h e logo na estação de serviço seguinte parou para nos comprar sumos! Parecia estar tudo a correr bem até que, ao entrar na cidade Horasan, deparámos com a estrada principal cortada devido a uma manifestação. Para mim haviam 2 soluções simples, contornar a manifestação por ruas secundárias da cidade e voltar à rota certa ou, sairmos do carro, atravessar a cidade a pé e recomeçar à boleia. Mas não, o condutor mudou de direcção e entrou numa estrada na qual as placas já não indicavam a distância para Doğubayazıt mas sim as distâncias para outras cidades a norte completamente fora da nossa rota. Pedi para parar e deixar-nos ali (ainda nos arredores da cidade) mas não, o condutor assegurou-nos que a estrada escolhida era uma alternativa boa e que uns quilómetros à frente iríamos encontrar uma estrada de novo na rota de Doğubayazıt. Contrariado calei-me, observando constantemente a minha bússola. Poucos minutos depois tinha já concluído que estávamos a fazer um imenso disparate seguindo aquela rota norte mas, que fazer? Depois de sairmos de Horasan não havia mais casas, nem pessoas ou carros, apenas imponentes e belas montanhas perdidas na imensidão turca.

Além de estarmos fora da rota, a estrada era péssima e o ritmo da viagem abrandou de forma brusca. Comecei a recear não conseguir chegar a Doğubayazıt neste dia e muita razão tinha em fazê-lo pois progressivamente o discurso do condutor tornou-se numa mixórdia de afirmações absurdas e incoerentes. Disse-nos, por exemplo, que estávamos a 25 km de Doğubayazıt quando o meu mapa e bússola me indicavam que estávamos ainda muito longe e a afastar-se de Doğubayazıt. Garantiu que chegaríamos daí a uma horan mas, passada essa hora, e de acordo com as placas de indicação, estávamos ainda muito longe! Garantidamente entráramos na rota errada, não para leste mas sim para nordeste e começámos a ficar impacientes. Para nos acalmar o condutor prometeu levar-nos até Doğubayazıt e não até à sua terra 50 km antes do nosso destino, como antes tinha sido combinado. Para mim a confusão foi ainda maior! Por que raio tinha este alucinado condutor saído da recta perfeita que nos levaria a Doğubayazıt passando obrigatoriamente pela sua terra, encaminhando-nos para uma rota que não seguia nem para uma terra nem outra. Nas melhores das hipóteses faríamos um arco por nordeste até por fim descer a Doğubayazıt. Quanto ao condutor, teria ainda de voltar à sua terra, rumando a oeste. Que confusão!

Álbum da viagem com o “psicopata”

As horas iam passando e a impaciência foi crescendo até nível insuportáveis, ao ponto de já só falar em português dentro do carro, ignorando-o completamente. Pelo contrário, o condutor parecia estar calmíssimo e a divertir-se imenso, ao ponto de parar numa aldeola no meio do nada onde nos encheu de chás e de parar já depois do por-do-sol para comprar uma meloa, a qual nos obrigou a comer sem fome. Ou melhor, não obrigou, mas opinou que deveríamos ter fome (não tínhamos, ainda mais com o stress!) e afirmou que só seguíamos de viagem quando acabássemos o raio da meloa! Esta gente por vezes até quer ser boa mas acaba por fazer uma grande merda. Se tivéssemos saído em Horasan e permanecido na rota, teríamos por certo feito esses 190 quilómetros restantes em menos de 3 horas, muito nas calmas, e chegado a Doğubayazıt por volta das 21h! Mas não, ainda havia uma grande filme pela frente… 20h, 21h, 22h…. o tempo ía passando, o stress aumentado e Doğubayazıt continuava sempre longe!

A dada altura chegámos a estar a 30km de Iğdır, uma cidade marcada não muito a norte de Doğubayazıt no meu mapa e que aparecia nas placas da estrada que seguíamos. Uma hora depois estávamos a 90 km dessa mesma Iğdır, que pesadelo! Impossível de perceber a psicologia deste bom-psicopata que dizia estar cansado e que tinha de voltar para casa para no dia seguinte conduzir um camião até à longínqua Istambul e, no entanto fazia quilómetros e horas extra de viagem! Impossível de perceber a empatia de quem se oferece para nos levar ao nosso destino final e que no entanto não faz caso nenhum daquilo que lhe dizem as pessoas que ele supostamente quer ajudar: explicámos e bem que andávamos há 3 dias na estrada, que tínhamos semi-dormido a última noite num camião em andamento, que tínhamos amigos à espera para nos dar casa em Doğubayazıt, que morríamos de fadiga, que não aguentávamos mais estar sentados dentro de carros… mas não, o homem, possuído pelo demónio, continuava a inventar estrada.

Feliz da vida, já noite escura, apontou para um aglomerado urbano à nossa frente, muito iluminado, e afirmou: “Lá ao fundo fica Yerevan, capital da Arménia. Aqui está fronteira!”!!! E pois estava! Às 22h estávamos longe de Doğubayazıt e a 600 metros da fronteira com a Arménia! Que filme de terror!  para quê? A partir daí começámos a ficar rudes e só repetíamos “Doğubayazıt, Doğubayazıt”. Por fim o psicopata decidiu acelerar a fundo, destruindo as suspensões do carro nas crateras da estrada mas, enfim, problema dele. Eram 23h15 quando por fim entrámos em Doğubayazıt… e o filme ainda não acabara

Horas antes, às 20, tínhamos telefonado ao nosso amigo Mehmet em Doğubayazıt e informado que chegaríamos às 21h (previsão do psicopata). Eu pedi a Claire para dizer a Mehmet que seria “mais tarde”… Nessa altura o psicopata pegou também no telemóvel e chegou a falar em turco com o nosso amigo, mas ficámos sei saber o quê pois a chamada caiu. Perto das 23h tínhamos ligado de novo ao nosso amigo e garantido que estávamos mesmo a entrar na cidade. Mehmet, como é lógico, disse Claire que não havia problema e que nos esperava. No entanto, o psicopata pegou de novo no telemóvel, falou em turco e a chamada caiu de novo. Desligado o telemóvel, afirmou que o nosso amigo não estava à nossa espera e que só contava nos acolher no dia seguinte! Absurdo, impossível, há semanas que estava combinado chegarmos neste preciso dia a Doğubayazıt e Mehmet nem dormia de impaciência para que chegássemos. Certo é que, quando parámos numa estação de combustível à entrada de Doğubayazıt não conseguimos telefonar a mehmet. o telemóvel estava desligado. Insistimos, mas em vão. Por seu turno, o psicopata continuava a afirmar que Mehmet estava chateado connosco e que só nos acolheria no dia seguinte. Não fizemos caso e pedimos para seguir até dentro da cidade, mas o raio do psicopata que tínha feito uma imensidão de quilómetros extra para nada agora recusava-se a entrar na cidade com o carro, defendendo-se com a desculpa de “não conhecer a cidade! E insistia que o melhor era irmos dormir na casa dele! Ah, mas não, mesmo não! Antes dormir ali no chão da estação! Tivemos que insistir e obrigá-lo a conduzir-nos para dentro da cidade! Afinal depois de 3 dias de viagem, não poderíamos morrer na praia, ficando a 4 km da cidade onde um amigo há muito nos esperava!

Apesar de ser turco, tivemos de ser nós a pedir indicações aos locais e a guiá-lo até perto do centro. O psicopata,  fluente em turco, “percebia” as indicações todas do avesso e teimava em nos levar para sua casa. Sem mais paciência mandá-mos parar o carro e fizemos o último quilómetro a pé até à rua onde se encontra a agência de turismo do nosso amigo. Faltava entrar em contacto com Mehmet o nosso amigo. Tentámos várias vezes, com telemóveis emprestados por quem passava na rua. Nada. Desesperados começámos a afastar-nos da rua, à procura de sítio onde meter a tenda, mas seria impossível dada o amontoado de lama, lixo e podridão um pouco por todo lado…. perto da meia-noite tentámos a nossa sorte com mais um telefonema e voilá, Mehmet atendeu! Estava bêbado, adormecera e desligara o telemóvel por acidente. Mas claro que nos esperava e claro que não estava chateado, antes muito preocupado. Coitado, veio a correr bêbado de chinelos e pijama suado pelas ruas de Doğubayazıt, da sua casa até à sua agência, para nos afogar em abraços e beijos! 🙂 Disse-nos que tinha muitos convidados a dormir na sua agência e, pegando-nos aos 2 pelas mãos, foi levar-nos a um bom hotel no qual pagou-nos uma noite… que filme, que filme……

Neste 3 dias na estrada, em vez dos 1500 km teóricos, acabámos por fazer 1850 km!

SILK ROAD TRIP #17 – Istanbul to Doğubeyazıt in 3 days (II)

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ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias – Parte 2

24.06.2014 – 20º dia de viagem

Istambul a Doğubeyazıt
Istambul a Doğubeyazıt

De manhã começámos por um pequeno-almoço principesco, no jardim da casa de Mustafa Göztok, na companhia da sua mulher, da sua filha e duas amigas dela, um amigo seu e uma vizinha. Não tivemos mãos a medir para provar todas as maravilhosas iguarias que nos dispuseram, queijo e doces caseiros, legumes do jardim, pão caseiro, café, chá… ah, foi maravilhoso! E as conversas muito interessante, pese embora a nossa urgência de partir pois ainda faltava-nos fazer quase todo o caminho de 1500 km e já íamos no segundo de viagem. Ainda assim, não partimos logo de seguida, fomos antes gentilmente “obrigados” a fazer um passeio guiado com Mustafa Göztok (presidente da junta de Çaibükü) e companhia pela aldeia, com a obrigatória paragem para chás e cafés no bar da aldeia, durante o qual nos divertimos a disparatar e tirar fotos uns dos outros! Eram já 11 horas da manhã quando voltámos a casa de Mustafa para pegar nas malas, fazer a foto de grupo para mais tarde recordar e, finalmente, partir!

pequeno-almoço em Çaibükü

A 1ª boleia do dia foi do próprio Mustafa que nos levou até Düzce, a tal cidade 10 km à frente onde jantámos no dia anterior com O Ditador num restaurante de estação de serviço. A boleia começou mesmo muito bem: quando vi um camião “engraçado” apontei para ele com o dedo e disse à Claire “É neste que vamos”! E fomos mesmo, segundos depois de começar a boleia já tínhamos encontrado transporte. O problema foi que o muito amável condutor tinha ainda umas entregas a fazer na zona antes de ir para Bolu (na nossa rota), facto que desconhecíamos e que fomos descobrindo pouco a pouco. Na primeira entrega esperámos tranquilos; na segunda tinha tantos frigoríficos para descarregar à mão que decidi ajudá-lo, até porque o pessoal da loja não estava muito animado para trabalhar. Pelo menos eram simpáticos, ofereceram nos água e convidaram-nos a visitar a loja à qual se destinavam os frigoríficos. Na terceira entrega, feita de um camião para o outro, dada a sonolência, má vontade para trabalhar e manifesta falta de inteligência, tomei conta das operações e organizei a transferência dos frigoríficos de forma a optimizar o espaço e despachar o trabalho! Afinal ainda havia uns 1300 km (teóricos) para fazer… Entre a 2ª e 3ª descargas bebemos uns chás,  oferecidos pelo camionista. Acabadas todas as entregas almoçámos um super banquete, super em quantidade e qualidade, uma vez mais oferecido pelo camionista. Eram 13h quando por fim se pusemos a caminho de Bolu!

2ª descarga
2ª descarga

Em Bolu levámos 1 minuto para apanhar uma boleia de um azeri que nos avançou 10km. Aí apanhámos a 1ª grande boleia do dia, 290km até Kirikkale, a bordo de um camião transportando combustível!!! A viagem foi lentíssima, deu para editar fotos no notebook e até dormir na cama por detrás dos assentos. Além do mais o camião avariou uma vez, e também parámos (claro) para beber chá numa estação de serviço! Para nosso desespero era quase noite quando nos deixou num parque de camiões nos arredores de Kirikkale. Aí apanhámos logo de seguida uma outra boleia, mas não foi longe, apenas para Kirikkale, e ainda por cima fizeram o erro de nos deixar dentro da cidade (em frente a estação de autocarros). Corremos feitos loucos até uma entrada da estrada principal enquanto assistíamos desolados ao por-do-sol. De novo uma boleia instantânea, mas um absurda: perguntei se ia para leste e o condutor disse que sim; poucos metros à frente apanhou a entrada para oeste. Pedi-lhe para parar o carro pois estávamos a ir no sentido errado. O condutor parou mas já longe do cruzamento onde eu poderia seguir para leste e pediu-me o mapa! Explicou-nos que ia para Istambul e queria ver no mapa qual a cidade que queríamos ir! Ah, mas Istambul fica a oeste de Kirikkale, não este, portanto não havia nada para mostrar, de modos que o mandei avançar e por-nos rapidamente na estrada onde estávamos a fazer boleia. O condutor calou-se e andou 2 quilómetros até a um local onde podia fazer inversão de marcha. Aleluia! Mas não, o raio do homem voltou a entrar em Kirikkale, em direcção à maldita estação de autocarros! Mandei para logo de seguida, na esperança de não ficar muito longe a pé da entrada da via rápida que nos interessava (e da qual acabáramos de sai estupidamente). Não fez caso, continuou a avançar. comecei a gritar e a ameaçar que lhe batia se não parasse. Por fim parou, já quase em cima da porcaria da estação de autocarros!!! Ahhhh, rrrrrr, que insistência com a estação de autocarros. Entretanto o céu ficara um pouco escuro, e nós estávamos exactamente no mesmo sítio onde a boleia anterior nos deixara! Mais uma corrida para a entrada da via rápida, desta vez já sem esperanças de apanhar boleia. Decidimos ficar à boleia mais uns 10 minutos, tempo de ficar completamente noite.

10 minutos depois veio o mega-milagre do dia (ou melhor da noite)! Um camião com dois condutores parou. Iam fazer 650km durante a noite, sem parar, conduzindo por turnos, até à cidade de Trabzon, na costa norte (Mar Negro). Trabzon não estava bem na nossa rota centro-leste, mas era bem melhor avançar até Trabzon durante a noite e ficarmos a 575km (teóricos) de Doğubayazıt (destino final), que montarmos ali a tenda e no dia seguinte termos ainda 1075 km para fazer. E assim fomos, 4 pessoas num camião com 2 assentos e uma cama. Foi um grande filme para arranjar espaço e para dormir, mas lá nos entendemos. Às 9h da manhã estávamos em Trabzon! Zombies, sonolentos… mas que  alegria de estar a menos de 600 km do destino final! 🙂

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #16 – Istanbul to Doğubeyazıt in 3 days (I)

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ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Istambul a Doğubeyazıt em 3 dias – Parte 1

23.06.2014 – 19º dia de viagem

Istambul a Doğubeyazıt
Istambul a Doğubeyazıt

Era suposto arrancarmos de manhã bem cedo, rumo ao extremo oriental da Turquia, mas o cansaço e a má-disposição de Claire fez com que adiássemos por umas horas a partida. Saímos por fim às 13h, fizemos uma breve paragem para comer kebab e ayran num restaurante sírio, e fomos em busca de transportes públicos que nos tirassem para fora de Istanbul. Sim, transportes públicos, pois é quase impossível começar a boleia numa determinada direcção dentro de uma megalópole de 17 milhões de habitantes. Começámos por apanhar um autocarro do “nosso” bairro até junto ao porto de Karakoy. Aí apanhámos um ferry para Iminönü, e de Iminönü um outro para Kadikoy (no lado asiático de Istambul). Tempo de mudar de meio de locomoção e atravessar a megalópole debaixo de terra, no metropolitano que nos levou até à cidade Kartal. Em Kartal acaba a linha do metro, mas não a mega-zona urbana, de modos que tivemos de apanhar um último meio de transporte, um dolmuş (mini-autocarro) de Kartal até Gebze, onde poderíamos finalmente começar a pedir boleia. Eram 17h30m quando pusemos os pés em Gebze; a maior parte das horas de luz tinham já passado e nós ainda só tínhamos alcançado o limite da zona urbana. Prometia ser longa a viagem até Doğubeyazıt, cidade do Curdistão turco a pelo menos 1500 km de Istanbul (se se seguir a rota mais rectilínea)!

Boleia para Izmit

Felizmente encontramo-nos na Turquia, que é para mim o país mais fácil de fazer boleia (por entre todos os países que já visitei). De forma que não é de espantar que pouco tempo depois um jovem muito simpático, estudante de química que se deslocava para a universidade, tenha parado para nos levar não até ao seu destino, mas sim muitos quilómetros à frente, à cidade de Izmit. Em Izmit apanhámos uma mini-boleia muito prática que nos tirou do centro da cidade e nos deixou numa bomba de combustível na saída este da cidade. Com as garrafas de água vazias, fomos primeiro às casas de banho para enche-las. Ao sair, demos com uma velha carinha estacionada na qual seguiam de viagem um velhinho muito simpático (condutor) e um alucinado dono de restaurante (*a boleia). Ao contrário do costume, tirámos primeiro fotos juntos, e só depois entrámos na carrinha que nos levou até à cidade de Sakaria.

Agora começa o grande filme do dia… nessa mesma cidade de Sakaria parou minutos depois um camião para nos levar, conduzido por um jovem muito religioso e de aparência muito simpática. Apenas falava turco, o que não é entrave para  as típicas conversas triviais de quando se anda à boleia em países estrangeiros. O problema era perceber onde e quando iria parar, pois tínhamos percebido que se deslocava até Düzce e que tinha ainda uma descarga a fazer, mas não entendíamos a relação entre os 2 factos. “Tudo bem”, confiámos nele e até ajudámos a encontrar o local da descarga, que para nosso descontentamento se encontrava muito fora da nossa rota. Afinal ele era natural de Düzce (dentro da nossa rota e onde passámos às 20h30) e tinha uma descarga nos arredores dessa cidade. O problema era que ele não sabia a morada da descarga, e nós já não percebíamos pelo seu discurso paranóico se voltaria a Düzce ou não. Voltou, mas eram quase 22 horas!

Queríamos sair em Düzce, comer algo rápido e montar a tenda, mas não, ele quis nos pagar o jantar. Se até então tinha mostrado apenas alguns pormenores de ditador, como não deixar a Claire sair do camião para assistir à descarga), agora deixava sair todo o seu autoritarismo-absurdo: escolheu os lugares de cda um ao redor da mesa, obrigou a ir lavar as mãos, mandou despachar a comer mas mandou acalmar a beber o chá, mandou comer o pão com a refeição… por aí fora! Se não tivéssemos as malas dentro do camião dele tínhamos largado a comida e ido embora! Enfim, estávamos zombies (literalmente) de sono e só queríamos montar a tenda o mais breve possível, antes que fosse tarde demais e acabasse por não a montar dormindo no chão. Mas ainda não, depois do jantar e de imensidão de chás “à força” dentro do restaurante, ainda tivemos de beber uns outros mais na esplanada, ordem do “chefe”, pese embora ele próprio se queixasse de uma imensa dor de cabeça e da necessidade de ir dormir!!! Imagine-se! Fomos aos camião buscar as malas mas não, o ditador “convidou-nos” a seguir com ele pois “tinha lugar onde dormirmos”, e insistiu imenso.

Para nosso espanto, voltou à estrada principal e começou a voltar para trás, donde tínhamos vindo antes, atravessando vários quilómetros. Pensámos que só poderia estar a levar-nos para sua casa,  e que o seu autoritarismo viesse da dor-de-cabeça e da falta de língua em comum. Assim se explicaria por que motivo não nos quis deixar sair horas antes em Düzce, antes da descarga, e porque perdera tanto tempo em chás e tretas, apesar de constantemente dizermos que “estava na hora de montar a tenda”! Ahhh, por ía nos dar casa! Mas não, andámos 10km para trás para nada! Para parar numa estação de combustível muito suja e mais pequena que aquela onde jantáramos! Que absurdo? Perguntei-lhe onde dormiríamos. “Na cama do camião se quiserem”! Ah, por favor, 3 numa mini cama!?! Pegámos nas malas e despedimo-nos já bem fulos. O “ditador” ainda insistiu, queria então que montássemos a tenda por detrás da loja da estação, num solo de cimento imensamente imundo e a cheirar a podre, e até foi avisar 2 gajos de muito mau aspecto ali presentes que nós iríamos dormir ali! Para a merda as boas maneiras, virámos as costas e fomo-nos embora, deixando a falar sozinho.

Estávamos agora perdidos numa aldeia do interior turco, passavam das 23h e morríamos de sono. Atravessámos a estrada pincipal, de forma a desaparecermos dos olhares dos camionistas e dos 2 homens de mau aspecto, para irmos encontrar um grupo ainda pior de gente rude e estúpido fazendo troça de nós! Seguimos com indiferença pelas ruelas sombrias da aldeia, em busca de bons campos onde montar a tenda. Campos e erva macia não faltavam, o problema era haver tanta gente na rua, o que não permitia parar e montar a tenda sem dar nas vistas. Que pesadelo! Já não conseguíamos mais andar de tanto sono.

Por fim arranjámos um lugar bom, e tapado por um enorme monte de palha. Já tínhamos as malas no chão quando apareceram vários homens, um deles com uma carrinha grande cujos faróis apontavam para onde estávamos. O condutor veio falar connosco mas eu, de forma muito rude, virei as costas, peguei em Claire pela mão e os 2 partimos deixando os homens sozinhos. O dono do carro insistiu em falar connosco (e não parecia hostil), mas o extremo cansaço (que me torna agressivo e bruto) que sentia apenas me dizia para fugir dali e encontrar outro lugar urgentemente, para simplesmente montar a tenda e dormir!!!  O coitado do homem persegui-nos a pé, depois de carro, até que na estrada passámos para o lado contrário e este teve de correr atrás de nós, deixando o carro abandonado. Pelo caminho chamei-lhe um monte de nomes e muito agressivo mandei-o ir embora não sei quantas vezes. Por fim veio a razão, com a ajuda de Claire, dei a mão ao senhor e depois um abraço, pedi-lhe desculpa comovido e entrámos no seu carro. Era óbvio que nos queria ajudar! Levou-nos até à sua mansão onde a sua mulher nos ofereceu chás e cafés, mas não queríamos, queríamos dormir. Não sei quantas vezes pedi-lhe desculpas, arrependido por não ter tido calma e por ter descarregado sobre este bom homem o stress acumulado com as paranóias do camionista e com a rudeza da gente estúpida por quem passáramos 15 minutos antes. Mustafa Göztok (presidente da freguesia, ficámos depois a saber) não quis saber das desculpas e não estava minimamente afectava com a rudeza com que eu o tratara. Deu-nos um quarto maravilhoso, água e copos e desejou-nos um boa-noite. Eu só queria dormir, para esquecer a vergonha que sentia de estar a ser tão bem acolhido por alguém que minutos antes eu tratara tão mal… ah, que vergonha… mea culpa! 🙂

dor de cabeça

Luís Garcia