SILK ROAD TRIP #30 – One day in Tbilisi, Georgia

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PORTUGUÊS:

Um dia em Tbilisi

16.07.2014 – 42º dia de viagem

Álbum do prédio

Num apartamento minúsculo e muito velho, sem água corrente e muito más infraestruturas, foi com enorme espanto que descobrimos que tinham ligação de internet por fibra óptica de 100 mb/s! É o tudo ou nada por estas bandas! Quanto ao prédio, nos corredores e por fora, completamente arrasado, sujo, esburacado e com dezenas de cabos de todos os géneros formando teias pelos corredor sombrios. Uma sovietice de topo! De facto o prédio era suposto estar abandonado mas muita gente veio procurar nele um lugar abrigado onde viver sem grandes despesas, sobretudo no período a seguir à invasão da Abecásia por parte da Rússia e que provocou uma enchente de refugiados dentro da Geórgia. A família de Tamuna é um exemplo disso mesmo, oriundos de uma cidade perto da capita abecaze, viram-se em 2008 obrigados a procurar refúgio numa outra cidade no lado geórgio. Tamuna e os 2 irmãos vivem na capital devido aos estudos e à maior oferta de trabalho.

De manhã bem cedo Tamuna partiu para Stepantsminda. Nós ficamos com os 2 irmãos, Gio e David. A meio da manhã David foi tratar do seu ganha-pão: passear cães de gente rica. Gio, eu, Claire e Diogo ficámos na moleza a manhã toda, comendo, conversando e tocado guitarra.  A única saída foi para encontrar um loja no 9º andar do bloco B, imagine-se, num labirinto soviético impossível de descrever e onde é quase certo uma pessoa se perder. Felizmente éramos 2, eu e Claire, conseguimos  comprar café e voltar sãos e salvos à casa dos nossos hóspedes, de onde partimos todos já por volta da hora de almoço quando David regressou. Que moleza! A primeira etapa do dia foi a zona soviética  onde vivem e onde existem 4 atracções principais: os prédios em ruínas, uma velha ponte, um teleférico abandonado deste o fim da URSS e uma grande universidade bastante degradada. Vejam o álbum:

Álbum de Bagebi (bairro longínquo de Tbilisi

 Dá que pensar este a resistência do teleférico soviético assim como muitas outras obras desse período. Neste caso, um teleférico parado a meio do percurso há pelo menos 23 anos, não apresenta nenhum tipo de degradação, provando que foi feito para durar! Até a tinta está como nova. Compare-se com a produção ocidental que segue um modelo declarado de obsolescência programada, de forma a que tudo dure pouco e el pueblo consuma muito e… aí está façam-se conclusões óbvias. E não adianta falar de outras sovietices em mau estado presentes nas minhas próprias fotos, pois o problema com essa herança soviética está no mau uso dado pela a Arménia independente e não na qualidade dos produtos.  Ao  ficar a meio do caminho, protegido do contacto com humanos, este teleférico não se transformou em mais uma sovietice enferrujada, antes passou a ser uma peça de museu congelada no tempo! MADE IN USSR! 🙂

Depois da viagem no tempo pelo bairro, apanhámos os 5 um autocarro para o centro, onde reencontrámos o velhinho fluente em francês que nos ajudara uns dias antes. Que alegria poder revê-lo! Também no centro fomos nos encontrar com um amigo de Gio e David, que durante o resto do dia seria o nosso guia turístico oficioso. Das 13h30 às 21h30 fez-nos andar que em loucos, subir e descer ruas a pique, sempre debaixo de temperaturas escaldantes. Parecíamos estar num treino de forças especiais! Mas ainda bem, em poucas horas ficámos a conhecer Tbilisi melhor que a maior parte dos geórgios (ver os álbuns abaixo)! Ah, mas ouve direito a pausa a meio da tarde: os irmãos de Tamuna (imensamente hospitaleiros) levaram-nos a almoçar soberbas especiarias nacionais (Ratchapuri e Ringali) acompanhadas com boa cerveja local! Que regalo, quando saí do restaurante mal podia me mexer, hehe! 🙂

Álbum 3 de Tbilisi
Álbum 4 de Tbilisi

À noite em casa de David e Gio, comemos muita melancia, cantámos e tocámos guitarra… via boa e tranquila…

Luís Garcia

Carnet de voyage de Claire #42

16 Juillet 2014

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SILK ROAD TRIP #29 – The Incredible Tale of Sighnaghi, 2014

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PORTUGUÊS:

A incrível estória de Sighnaghi

14/15.07.2014 – 40º e 41º dias de viagem

A aventura começou de forma humilde, comendo massa ao pequeno-almoço e lavando a loiça antes de partir. De malas às costas descemos a pé até ao centro da cidadezinha de Stepanstminda e começámos a pedir boleia. A primeira apareceu de imediato mas avançou-nos apenas 8 km. A segunda levou mais tempo a aparecer e acabou por nos levar longe demais. Eu explico.

A boleia foi-nos dada por um condutor de táxis de longa distância que vinha da Rússia com a carrinha vazia e dirigia-se ao seu país, o Azerbaijão. A língua turca e azeri são quase idênticas mas por mais que tentássemos explicar em turco o nosso trajecto e perguntar-lhe o dele, o homem nunca conseguia perceber nada. Além do mais não sabia nenhuns nomes de cidades geórgias além de Tbilisi, o que não é normal para um TAXISTA oriundo do PAÍS VIZINHO. Enfim, atravessámos com ele o sinuoso e lento percurso que liga Stepanstminda a Tbilisi sem stress nem mais problemas (além da impossibilidade de comunicar). Só a partir de Tbilisi a estória se complicou pois o taxista que insistia estar a dirigir-se para o Azerbaijão não nos conseguia dizer por que rota: a sul, que não nos interessava, ou a oriental que passaria por Sighnaghi (nossa próxima etapa)! Como sabem o trânsito é sempre complicado e as rotas nadas evidentes dentro de uma capital, muito menos em Tbilisi por onde têm de passar 100% daqueles que tentem ir não importa onde na Geórgia. Quando o vimos entrar numa estrada na qual um painel indicava “Aeroporto” ficámos tranquilos, visto que o aeroporto fica 15 km a este de Tbilisi. Para nosso descontentamento, pouco quilómetros depois começámos a perceber que não nos deslocávamos para leste mas sim para sul. Entre tentar analisar a estrada e explicar que não deveríamos ir por ali, quando conseguimos fazer parar a viatura já estávamos às portas da cidade “soviética” de Rustavi, bastante a sul de Tbilisi. Que filme! À nossa volta só relíquias do período soviético enferrujadas, bombas de combustíveis perdidas no tempo e campos imensos….

à boleia com mafiosos…

Por sorte um carro parou perto de nós e aproveitámos para pedir boleia. Outro filme. Entrámos num carro blindado de 2 mafiosos! Ao carro faltava-lhe quase todo o interior e o esqueleto mais os componentes electrónicos estavam todos expostos. Impossível baixar o vidro ou abrir a porta por dentro. Claramente, o processo ilegal de blindagem do bólide ainda estava em curso. Os 2 homens eram muito sinistros, sobretudo o condutor, gigante, muito gordo, com fios de ouro e suando por todos os lados. Pareciam muito ocupados com telefonemas e não nos prestavam muita atenção. E quando o faziam eram simpáticos! Enfim, com tantas fotografias de nossas senhoras e meninos jesus no carro, dava para perceber que eram mafiosos com uma parte fraca e que, tal como no filme O Padrinho, quem rouba e mata sem escrúpulos também é capaz de genuínos actos de generosidade. Quanto ao carro, que aventura, desligava-se sozinho de 5 em 5 minutos, tendo o condutor de desligar e ligar a chave mesmo em andamento…. Para provar que queriam mesmo nos ajudar, deixaram-nos na entrada sul da cidade num cruzamento onde uma placa indicava “Aeroporto” e “Sighnaghi”! Ah, que alívio…

Tbilisi II

Desse cruzamento andámos a pé uns 3 km até não poder mais. Decidimos encontrar um autocarro urbano que nos levasse até ao fim da cidade para podermos fazer boleia. Pedimos ajuda a uns velhinhos que nos explicaram como ir de bus até ao centro e daí de metro até à estação com autocarros para Sighnaghi. No entanto, teimámos em seguir para leste por aquela estrada, com um bus urbano, sobretudo depois de encontrarmos mais uma placa indicando o aeroporto. E assim foi, fomos até ao fim da linha para descobrir que o bus não se dirigia para a saída leste de Tbilisi mas sim para um caótico e enferrujado barro soviético. Fizemo-nos (ainda mais) de parvos, perguntámos pelo centro e o simpático condutor convidou-nos a seguir agora no sentido contrário sem pagar novo bilhete. Assim poupámos 0,20 € cada! :p Com novas e contraditórias informações sobre a localização da estação de autocarros, atravessámos o centro a pé e subimos ao monte central da capital onde pudemos apanhar o metro, ainda sem saber se sairíamos na 2ª ou na 3ª paragem, conforme nos tinha dito antes o velhinho ou agora um jovem. Apostámos na versão do mais velho e sábio e fizemos bem. Estávamos no sítio certo,  sem sabermos, mas foi preciso um outro enorme filme para confirmarmos este facto!

A “estação” era uma rua comercial cheia de lojas de telemóveis e fast-food. Autocarros nem vê-los! Apenas um enxame de táxis e uns cabrões de taxistas piores que abutres de volta de nós gritando e tentando vender os seus absurdamente caros serviços. Humanismo nem pensar! Uma pessoa pergunta-lhes onde estão autocarros e estes seres abestalhados metem-se a fazer troça e a dizer javardices em russo enquanto nos viram as costas todos contentes! E por incrível que pareça, ninguém (todos excepto os taxistas que sabiam mas não queriam dizer) sabia nos dizer onde encontrar UM autocarro nesta enorme estação de autocarros! Parecia estar a visitar uma realidade paralela, hehe! Desistimos e fomos embora, a caminho da outra paragem de metro. Na estrada principal, logo no início da caminha  encontrámos um local que dizia ter a certeza de haver autocarros para Sighnaghi na estação donde acabáramos de sair,  não sabendo porém dizer em que parte! Ok, voltámos para trás. Atravessámos toda a estação a pé, a subir, e no fim da rua da estação perguntámos pelos autocarros a uma jovem senhora: fugiu de nós. Perguntámos a um jovem casal, a rapariga queria nos mostrar mas o rapaz não. Com insistência lá vieram connosco, 15 metros para além de um cruzamento por detrás do qual se encontravam escondidos um monte de mini-autocarros! Que palhaçada!

Não havia nenhum autocarro directo para Sighnaghi, apenas para Tsnori, uma cidade 7 km ao lado. Para nós tudo bem, aliás sabíamos que teríamos de passar por Tsnori, o problema foi explicar ao jovem casal e aos condutores de autocarros que nós sabíamos onde era Tsnori e que realmente queríamos apanhar aquele autocarro! Ah, que cansativos. Enfim, lá conseguimos nos entender. Dentro do autocarro fomos encontrar para nosso espanto a chorar a jovem que minutos antes fugira de nós quando perguntámos por este mesmíssimo autocarro? Ah, mundo louco. Infelizmente para ela, poucos minutos depois apareceu a razão pela qual chorava. Um cabrão de um turco marialva e bruto que lhe gritava (em turco), apertava e quase lhe batia em frente a toda a gente. Não entendo relações assim, que faz esta jovem com um psicopata destes! Que horror!

Mesmo no momento da partida entrou mais um passageiro que se foi sentar no único assento disponível, ao nosso lado. Era guia turístico, falava um pouco inglês e era fluente em turco. Por decisão dele a conversa desenrolou-se em turco. Completamente autista mas bom rapaz, não parou de nos bombardear com perguntas, sem ter a necessária empatia para perceber que não tínhamos conhecimento de turco para seguir o seu discurso à velocidade da luz, nem tampouco empatia para esperar pelas respostas. Só queria falar e não ouvir. Para aquecer o ambiente o marialva turco entrou na conversa de forma arrogante e bruta discordando do geórgio porque sim, apenas para poder por em acção a sua pilha de testosterona! O pobre autista geórgio era demasiado autista para perceber a provocação gratuita do turco e decidiu responder. O guia geórgio, imagine-se, era tão chato e tão autista que até o macho-man turco desistiu de falar e voltou a virar-se para a frente. Que viagem surreal!

Muitas horas depois e já noite chegámos a Tsnori, uma terra improvável onde só há farmácias e bancos (2 coisas que nunca  encontrámos viajando pelo interior da Geórgia). Este país é de extremos, ou tudo ou nada. o que rimos quando vimos aquela fila toda de farmácias numa vila assim tão pequena. Muito bom mesmo.

Como era noite tivemos de deixar a ida a Sighnaghi para o dia seguinte e procurar um local para pôr a tenda. A terra é pequena e em poucos minutos fomos da estrada principal (num extremo da vila) até ao posto de polícia no outro extremo. Pelo caminho havíamos visto um parque e aí voltámos para montar a tenda, pese embora a enorme quantidade de locais bebendo e fazendo barulho. Uma boa parte deles estava sentado em frente a uma tela assistindo gratuitamente a cinema ao ar livre. Que sorte para eles que percebem geórgio! :p

Nós instalámo-nos o mais confortável possível com a tenda por cima de erva seca e abrigada por enormes árvores, acreditando ingénuos que aventura do dia iria acabar por ali. Qual quê! À 1h da manhã acordámos assustados com gritos e rugidos de dois gajos malucos pedindo cigarros! Durante 10 minutos gritaram, ameaçaram, acenderam o isqueiro à volta da tenda, atiraram pedras até que um mandou um pontapé na tenda e aí saímos da tenda gritar com vontade de matar alguém! Fugiram mas ficaram perto, nós voltámos para junto da tenda apreensivos. Com tanta confusão apareceram 2 vizinhos do parque em boxers e com cara de quem estaria a dormir. Os bandidos explicaram a versão deles, nós chamámos-lhes de mentirosos em russo e explicámos aos vizinhos do parque que apenas queríamos dormir em paz, tudo isto com 7 ou 8 palavras em russo e muitos gestos.  Pelo estado de alcoolismo dos 2 bandidos não foi difícil ao vizinhos perceber quem tinha razão. Ralharam com os dois bandidos e foram dormir descansados. Nós é que não, ficámos a vê-los atirar pedras e partir árvores a 25 metros de nós junto aos postes de luz. Nós viamo-los muito bem, eles a nós nem por isso. Tomámos uma decisão drástica, Claire iria sair do parque  por detrás das árvores à escura, indo procurar a polícia ali mesmo ao lado. Nós ficaríamos ao escuro no parque entre o caminho para Claire sair, a tenda e os 2 bandidos, e seguiríamos atrás deles de faca nas mãos se eles vissem e seguissem Claire. Não viram. Ficámos atentos aos seus movimentos, a uma distância segura. Assim que se movimentaram, minutos depois, rumo à entrada do parque, respirámos fundo e fomos atrás deles, receando que Claire estivesse a entrar sozinha no parque. Mas não, tudo correra na perfeição e aquelas duas estúpidas criaturas estavam agora entaladas entre mim e Diogo num lado e Claire na companhia de 2 polícias do outro lado. Como os polícias só falavam geórgio e russo, começaram por ouvir os agressores e não os agredidos, mas eram muito boas pessoas e muito civilizados. Com calma tentámos explicar que estavam a mentir, que nós estávamos a dormir e não queríamos problemas com ninguém, mostrámos as pedras e as árvores partidas e imitámos o acto de tentar pôr fogo à tenda com isqueiros. Se dúvidas houvessem, os vizinhos apareceram de novo em boxers e confirmaram a nossa versão. Infelizmente os geórgios ADORAM discutir e por isso ficámos ali mias uma hora a ouvi-los ralhar e discutir. Por fim desejaram-nos uma boa noite, disseram-nos para ficarmos tranquilos que nada de mal nos aconteceria de novo e levaram os dois bandidos com eles para esquadra. Pelo caminho os 2 bandidos acenderam cigarros e puseram-se a fumar, provando que nem sequer teriam vindo pedir cigarros a nós, apenas tinham vindo “fazer merda” gratuíta…

Álbum de Tsnori

De manhã acordámos todos sonolentos, depois da noite de stress mal dormida. Ainda assim despachámo-nos e ganhámos coragem para voltar à estrada. Faltavam apenas 7 km para chegar à famosa cidade histórica de Sighnaghi. Ao contrário do resto da Geórgia, a boleia prece não funcionar em Tsnori, de forma que tivemos de desistir e negociar (muito) um táxi. Os primeiros pediam 10 laris (4,16 euros) mas com paciência conseguimos um por 4 laris (1,66 euros). Pelo caminho fomos presenteados com a formidável vista de pomares de romãs, essa fruta tão exótica para nós mas tão comum por estas terras.

Em Sighnaghi fomos pedir a bebida mais barata que havia num restaurante/hotel de luxo (Coca-cola a 41 cêntimos) e aproveitámos para usar as casas de banho e pedir para nos guardarem as malas. Com toda a gentileza apareceram 3 empregados do hotel que levaram as 3 malas para lugar seguro nas arrecadações! Incrível. Estávamos por fim livres para explorar a cidade histórica e as longas muralhas ao lado que embora grandes parecem uma miniatura bem feita da Muralha da China. Passámos umas boas horas entretidos a passear, a tirar fotos, a brincar com as ruínas soviéticas e até a falar com locais (uma senhora fala espanhol melhor que eu!).  Sem dúvida um dia bem passado.

A meio da tarde fomos buscar as malas ao hotel de luxo e fomos almoçar uma pizza num local mais em conta, o WineWorld Bar, onde não falta sequer um poster grande do Vinho do Porto Ramos-Pinto. Aí aproveitámos para ligar aos nossos contactos de Tbilisi. Tamuna, a jovem simpática que conhecêramos em Stepanstminda não atendia o telefone. Tentámos então Irakli, um businessman que conheceremos semanas antes em Istambul. Com muita entusiasmo disse-nos que nos esperava em Tbilisi! Ah, que satisfação! Pagámos a conta e fomos para a estação de autocarros. A caminho da estação passou por nós de moto-quatro um dos polícias que nos ajudar no dia anterior. Parou para nos cumprimentar sorridente e seguiu à sua vida.

Horas depois, já em Tbilisi, ligámos de novo para Irakli. Para nosso desgosto informou-nos a sua secretária que tinha partido de emergência para Istambul! Tentámos de novo ligar a Tamuna e tivemos sucesso. Tamuna deu-nos as coordenadas todas e por acaso estávamos na estação de comboios, o local certo para apanhar o autocarro urbano para o bairro dela. Tivemos sorte porque quando apanhámos o autocarro urbano à chegada a Tbilisi, o plano era sair no centro; como são muito confusas as linhas de autocarros urbanos fomos para à estação de comboios. Ainda bem, até porque apanhámos o último autocarro urbano do dia que seguia até junto da casa de Tamuna. Se tivéssemos saído no centro teria sido um filme para ir ter com ela.

Álbum da casa de Tamuna

Na última paragem da linha 9 de autocarros ali estava Tamuna esperando por nós com sacos de compras nas mãos. Fomos com ela até ao prédio soviético em ruínas onde vive com os seus 2 irmãos quando não está a trabalhar em Stepantsminda. O serão foi muito interessante, conversámos, tocámos guitarra e comemos um prato tradicional preparado por Tamuna: o Elarji. Para nosso espanto, quando dissemos que estávamos cansados, os 3 irmãos foram dormir no chão da cozinha e ofereceram-nos o seu quarto com 3 camas! Que gente boa, demasiado boa!

Luís Garcia

Carnet de voyage de Claire #40 et #41

14 Juillet 2014

15 Juillet 2014

SILK ROAD TRIP #28 – From Ananuri to Stepantsminda, 2014

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PORTUGUÊS:

De  Ananuri a Stepantsminda

12/13.07.2014 – 38º e 39º dias de viagem

O dia à beira lago começou com banhos e muita moleza. A meio da manhã por fim ganhámos coragem para preparar um pequeno almoço e depois ainda houve tempo para um longo jogo de xadrez antes de partir. Por fim sentíamos deveras o prazer de viajar, tranquilos e felizes por  fazer… 🙂 Era já 1 da tarde quando pegámos as malas e nos pusemos a andar, 15 minutos a pé até à estrada principal e em seguida 15 minutos à espera para apanhar boleia. Que sorte incrível, logo à primeira encontrámos o carro que nos levaria a Stepantsminda. O condutor e o seu filho de 10 anos, arménios, estavam de viajem rumo a Rostov na Rússia. Stepantsminda fica a apenas 15 km da fronteira da Geórgia com a região separatista russa da Tchétchénia! Por que caminhos foram se meter!

Logo ao início ofereceram 2 pêssegos a cada, mostrando a sua sincera hospitalidade. Como a paisagem é linda, o simpático senhor fez umas pausas estratégicas nas quais fizemos fotos magníficas, não só da natureza mas também de todas as relíquias soviéticas espalhadas pelo percurso. Fizemos outra paisagem estratégica para encher as garrafas com água gelada e mais à frente uma paragem para almoçar os produtos caseiros que traziam na bagagem: ovos, queijo, pão, mel, galinha cozida, legumes, vodka e vinho! Que regalo. Poucos quilómetros à frente parámos num indescritível e belo miradouro soviético onde bebemos uns cafés oferecidos pelo condutor. Uns quilómetros antes do nosso destino houve tempo para uma última paragem numa fonte de água com gás que parece um mini-Pamukkale versão cor-de-laranja.

Álbum de Stepantsminda

À chegada a Stepantsminda veio o momento mais difícil: como se separar de gente tão boa e querida, ainda mais com o miúdo arménio abraçado a nós quase a chorar! Que sufoco, mas enfim, fazem parte da viagem estas separações dolorosas. Fica a memória destas pessoas adoráveis que tão bem nos trataram e que encheram este dia passado nas montanhas da Geórgia.

Em Stepantsminda fomos dar com frio. Se no planalto central da Geórgia de onde saíramos pela manhã fazia mais de 35 graus, aqui, dada a elevada altitude, a temperatura era de 22 graus. De dia, porque de noite então é mesmo gelado! Como passámos quase o dia inteiro na estrada, à chegada a Stepantsminda era já hora de organizar sítio para dormir. O plano inicial era montar a tenda, mas com tanto frio e ameaça de chuva, decidimos dar uma volta pelos bairros mais pobres e “soviéticos” da “cidade” em busca de alguém para nos ajudar. O primeiro grupo de pessoas que falámos nem sequer perceberam o que queríamos. À segunda falámos com uma dona-de-casa que nem sequer deixava por a tenda no seu jardim! À terceira vimos espantados um adolescente passar (numa zona onde só se avistam velhos) e pedimos ajuda. Falava um inglês excelente, chamava-se Tornike e 2 minutos depois já estávamos confortavelmente sentados na mesa da cozinha da casa que partilha com outros colegas de trabalho (todos adolescentes, trabalham num hotel de luxo ao lado durante o verão). Uns minutos antes não sabíamos que fazer da vida nesta montanhas gigantes de clima ameaçador, agora tínhamos casa para 2 noites, jantar, banho quente, internet wifi, companhia divertida e inteligente e uma cama para cada um! Que luxuosa hospitalidade!

O nosso novo amigo Tornike não parava de nos surpreender com o seu nível de inglês e de cultura. Aos 19 anos tem já um conhecimento formidável de geografia, história, toca piano e clarinete, interessa-se por uma miríade de assuntos e consegue até dizer os nomes das equipas da 2º divisão portuguesa! Uma enciclopédia falante este rapaz! E não se cala um segundo, fala tão rápido que até se engasga, eufórico para contar mais e mais histórias e fazer-nos perguntas sem cessar! Que encanto! 🙂

Além de Tornike, uma outra adolescente nos chamou a atenção pela sua extrema delicadeza, simpatia e altruísmo: Tamuna, uma jovem geórgia com origens na Abecázia (onde não pode entrar visto se encontrar ocupada pela Rússia) e que também trabalha no restaurante de luxo. Apesar do manifesto cansaço, nunca nos deixou fazer nada, sempre pronta para nos ajudar e servir, teimosa em fazer valer a famosa hospitalidade geórgia!

Entre muita conversa e alegria a casa foi se enchendo de amigos deles e a noite avançou ao sabor de rabanadas (feitas com kefir na falta de leite) e de cerveja. Para o final uma das colegas de trabalho, Maya, até me fez o favor de cozer a recém-comprada bandeira da Geórgia na minha mochila de viagem! Enfim, um dia que deu para tudo… 🙂

Álbum de Pansheti

No dia seguinte de manhã pegámos em todo o equipamento fotográfico e fomos os 3 caminhar 5 km pelo leito seco do rio, entre Stepantsminda e a aldeia de Pansheti onde ainda se encontram algumas casas antigas, em forma de torres e contruídas exclusivamente em pedra. Foi uma caminhada de várias horas muito interessante, na qual podemos observar as magníficas montanhas em redor (a mais alta chama-se Kazbek e tem 5037 metros de altitude), as vacas de montanha pastado em precipícios, as relíquias do período soviético espalhadas um pouco por todo o lado e, claro, o elevado dinamismo do clima que pode mudar de um calor abrasador para chuva torrencial gelada em poucos minutos. Foi precisamente por esse tipo de chuva que nos vimos forçados a parar o passeio e correr para debaixo de uma ponte. Da ponte só saímos para apanhar uma boleia de um monge mudo que nos levou de volta ao centro de Stepantsminda. Com o tempo sempre a piorar não tivemos outra alternativa senão abrigarmo-nos na casa dos nossos hóspedes o resto da tarde onde comemos e descansámos. Ao lado da “nossa” casa havia uma pequeno casarote em ruínas e em remodelação, obra de 3 bêbados paranóicos. Sem darmos por ela, 2 deles entraram na “nossa” casa e “raptaram” o Diogo para o “obrigar” a beber vodka caseira. Quando voltou para contar a aventura, decidi ir lá eu, não para provar a terrível vodka mas sim para pedir pão. Consegui o pão, aliás, 4 pães velhos e secos mas gratuitos. Infelizmente tive de provar também da terrível vodka, não bebendo mais porque a garrafa estava no fim. Na sua primitiva e ébria hospitalidade já não me queriam deixar sair, convidando-me a descansar numa das fétidas camas espalhadas pela caótica tentativa de casa. Mas não, por entre abraços e baboseiras em russo lá consegui fugir a correr com os pães nas mãos! Ah, que alívio, longe da “malucada” e com pão para o almoço! Quando voltaram do trabalho os nossos hóspedes, juntámo-nos todos uma tranquila convivialidade que durou o resto do dia…

Álbum da “nossa” casa em Stepantsminda

Luís Garcia

 

Carnet de voyage de Claire #38 et #39

12 Juillet 2014

13 Juillet 2014

SILK ROAD TRIP #27 – From Mtskheta to Ananuri, 2014

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De Metskheta a Ananuri

10/11.07.2014 – 36º e 37º dias de viagem

Diogo chegou às 4h30 da manhã ao aeroporto internacional de Tiblisi. Eu e Claire estávamos a dormir no chão com os saco-camas, esperando por ele. Às 4h20 fui esperar Diogo nas chegadas; foi um dos últimos a sair, muito tranquilo. Como ainda era cedo, abriu o seu saco-cama e tentou também dormir no chão do aeroporto. Não durou muito, pouco depois começou a ficar dia e cada vez havia mais gente e mais barulho. Às 6 da manhã desistimos da dormida impossível e pegámos um autocarro de 20 cêntimos para a estação central de comboios de Tbilisi, perto do centro da cidade e a 15 km de distância do aeroporto.

Estávamos os 3 muito cansados, sem energia, de modos que fizemos tudo em “câmara lenta”: comprar uns cafés e algo para comer, procurar o autocarro urbano com o qual ir até à estação da qual partem os mini-autocarros para Metskheta, fazer compras para o dia.
Em Metskheta, um vila protegida pela Unesco e antiga capital da Geórgia, assim que saímos do mini-autocarro (era já hora de almoço), pusémo-nos a caminhar em direcção ao grande sonho do dia: o rio, onde queríamos lavar-nos bem e refrescar-nos o mais possível. Pelo caminho, para nosso espanto, adoptámos um cão, ou melhor, ele adoptou-nos a nós, seguindo-nos o resto do dia, descansado onde descansámos, mostrando-nos por vezes o caminho certo por entre a floresta que levámos uma hora a atravessar. Perto do rio fizemos o nosso “acampamento” e saltámos para dentro de água com sabão e champô nas mãos.

Álbum de Mtskheta

Já a cheirar a lavado e descontraídos, eu e Diogo fomos visitar o castelo e umas “ruínas soviéticas” muito interessantes. O cão, claro, veio connosco. Ah, que bela vista panorâmica de Metskheta se obtém do topo do castelo!

Quando saímos do castelo, mais pela brincadeira que pela necessidade, esticámos os braços a pedir boleia. Poucos segundos depois o segundo carro a passar parou-nos e avançou-nos 1 km até à igreja que queríamos visitar. O cão, coitado ficou para trás, sozinho, mas não por muito tempo. Quando saímos da dita igreja lá estava ele de novo pacientemente esperando por nós e saltando de alegria por nos reencontrar. E Assim fomos os 3 todos contentes descendo a rua principal da cidade até ao complexo património da Unesco onde se encontra uma das mais antigas igrejas do país. O cão não entrou, corrido a pontapé por um estúpido deficiente que espancou o pobre animal de tal forma que este fugiu a correr e nunca mais o vimos! Que nojo de gente!

À porta mais gente pouco aconselhável: um grupo de beatas vestidas de negro a falar pelos cotovelos e rindo, parando só para chatear os visitantes com os seus braços esticados e falsas lamentações nada convincentes. E mais, vendo o ar de desprezo dos visitantes, apontavam para um pobre paralítico mantido vergonhosamente ali em cativeiro ao calor por estas bruxas que em vez de tomar conta dele em casa o trazem para uma macabra exibição com fins lucrativos. Nojenta beatice!

Para compensar encontrámos uma simpática senhora, guia profissional em língua inglesa. Fui muito honesto com ela e expliquei-lhe que o preço do seu interessante serviço era completamente imcompatível com o nosso orçamento de viagem. Tudo bem, não nos fez uma visita guiada gratuíta mas ainda assim fez o favor de nos explicar um pouco da história do lugar e o significado dos símbolos pagãos tão abundantes dentro e fora da igreja central. Ah, e finalmente fiquei a perceber por chamamos Geórgia à Geórgia (é que em geórgio o nome é Sakartvelo, nada a ver): no tempo da Grécia Antiga esta região era famosa no mundo helénico pela fertilidade do solo e bom clima que combinados resultavam numa abundante produção de bem agrícolas. Ora “geo” em grego significa terra (Geologia: estudo da terra), e Geórgia o local com terra (boa para cultivo).

Graças às explicações da guia pudémos apreciar melhor os segredos contidos neste belo lugar, pelo menos do lado de fora da igreja e no jardim, porque dentro da igreja mal tivemos tempo para entrar. Uma vez mais a razão é gente estúpida. Um gajo paranóico, um dos “padres de serviço” veio embirrar comigo por ter um lenço árabe na cabeça e correu da igreja para fora. Que estupidez, as mulheres são obrigadas a por lenço na cabeça se querem entrar nas igrejas geórgias, eu não posso entrar COM um lenço porque este tem um padrão de losangos pretos e brancos! Ah, que doença o fanatismo religioso!

Contentes pelo grande e interessante passeio, voltámos à beira-rio. Claire foi dar o seu passeio por Metskheta e nós fomos a banhos uma vez mais. Ao fim da tarde voltámos ao centro vagarosamente e entrámos num café. Para nossa alegria o filho da dona do café-hostel foi buscar uma garrafa de vinho caseiro e convidou-no a beber com ele. E mais, em inglês ajudou-nos imenso com dicas sobre como viajar na Geórgia! Nós que comprámos a bebida mais barata que havia só para poder permanecer ali esperando por Claire usando internet e acabámos por ser tratados com tão grande hospitalidade! Ah, que gente boa.

O filme do dia aconteceu quando eu e o Diogo fomos para o relvado do campo de futebol local montar a tenda. Claire ficou para trás, no bar, usando internet. Quando tentou juntar-se a nós era já noite e perdeu-se. Ah, que filme, andámos os 3 a gritar e a usar laternas pela cidade fora… Que barracada, nós que queríamos passar despercebidos com a tenda montada no campo de futebol e acabámos por chamar a atenção de toda a vizinhança. Bom, até foi divertido (talvez menos para Claire que apanhou um “susto do carago”! Eheh)

Álbum de Uplistsikhe

Na manhã seguinte, como de costume fizemos um cafezinho para os 3 com o nosso mini-fogão, desmontámos a tenda e voltámos à estrada, rumo às famosas grutas de Uplistsikhe, um dos primeiros centros urbanos do antigo Reino de Kartli (Geórgia clássica). Num ritmo alucinante apanhámos 3 boleias, pelas quais esperámos 2 minutos cada, e que nos avançaram alguns quilómetros. Só à 4ª boleia começámos por fim a aproximar-se de Uplistsikhe. A boleia até ia para o caminho certo rumo a Uplistsikhe, mas o pobre homem confuso e sem saber bem por onde nos levar, deixou-nos num cruzamento no meio do nada do interior geórgio. Com a ajuda de uns locais que ali passavam, ficámos a saber que a estrada certa era aquela por onde seguira a boleia anterior! Que falhanço. Estávamos seguros que passaríamos o resto do dia ali no meio do nada, mas não, poucos minutos depois apanhámos boleia de um judoca que nos levou até ao cruzamento que dá para a vila de Uplistsikhe. Faltavam apenas fazer 7 km de novo no meio do nada, onde não passam carros nenhuns! No problem, ao virar da esquina estava um polícia muito simpático dentro de um luxuoso bólide de vidros fumados. Nem ousámos se aproximar da viatura, foi ele que nos chamou e gentilmente nos levou até à entrada das ruínas! 🙂

Uplistsikhe é de facto um lugar soberbo, dos melhores que já vi em tantas viagens. A atracção principal é o complexo de grutas de todas as formas e tamanhos, construídas para diferentes fins numa sociedade que deveria ser muito organizada, eficiente e limpa. Nas paredes de pedra esculpida não faltam sequer prateleiras. Por todas as ruas se encontram escadarias e regos para a água. Nos caves principais os baixos-relevos nos tectos imitam na perfeição as formas que se encontravam nos palácios de impérios como o Persa. Inclusive há tectos esculpidos na rocha imitando complexas estruturas de madeira! Que maravilha! Além de toda esta riqueza histórica e arquitectónica, a paisagem de vales em volta é de cortar a respiração e de um dos lados vê-se ruínas de uma outra época (mais recente creio)! A todos aqueles que planeiem visitar um dia a Geórgia, aconselho-vos vivamente a visitar Uplistsikhe!

Para sair de Uplistsikhe foi um grande problema, dos poucos carros que passaram nenhum parou nos levar. Tivemos que optar pelo mais duro, caminhar. Andámos cerca de 5 km sob um calor insuportável de malas às costas, até que por fim nos apareceu a boleia do dia. Um táxi geórgio com um cliente neozelandês que nos levou até à cidade de Gori (para entrar na auto-estrada), e daí mais umas dezenas de quilómetros até ao cruzamento com a auto-estrada rumo ao norte. O calor era cada vez mais, já nem parados aguentávamos o calor. Felizmente não levámos muito tempo a apanhar boleia de um bólide conduzindo pelo neto de um antigo jogador do Dínamo de Tbilisi que ganhou a Taça UEFA em 1981 e que jogou pela selecção da URSS contra Portugal, defrontando por uma vez Eusébio! Com mais uma boleia avançámos até à cidade quasi-fantasma de Zhinvali. Que filme, uma vila de 2000 pessoas (onde estão não sei) na qual o melhor que se encontra são mini-mercados na rua principal sem electricidade nem gente a atender e com os produtos a apodrecer. Surreal, no mínimo… de tantas voltas e conversas absurdas com bêbados e com A Tradutora da vila, acabámos por encontrar boleia para o lago Zhinvali sem voltar à estrada principal. Parecia que estávamos em mais um filme Kusturiciano!

Álbum de Ananuri

Finalmente em Ananuri, um vilarejo histórico ao lado do lago, largámos as malas e saltámos para dentro de água! Que lago e paisagem maravilhosa. Infelizmente já era quase noite e não deu para aproveitar muito. Fomos pedir aos donos de uma casa ao lado se nos deixavam usar a relva do jardim e, além da resposta positiva, recebemos peixe assado, peixe acabado de ser pescado no lago, legumes e um fogão emprestado para cozinhar. Mesmo em frente a nós no parque do lago fui encontrar um checo reparando a sua mota a quem pedi fita-adesiva para reparar a nossa tenda. Como é de adivinhar, o checo e um amigo seu acabaram por vir jantar connosco e trouxeram-nos cerveja com a qual acabámos o dia em bem…

Luís Garcia

 

Carnet de voyage de Claire #36 et #37

10 Juillet 2014

11 Juillet 2014

 

SILK ROAD TRIP #26 – Going to Tbilisi to meet Diogo Saraiva, Georgia, 2014

georgia

(click the photo to watch the full album)

ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Ao encontro de Diogo Saraiva em Tbilisi

08/09.07.2014 – 34º e 35º dias de viagem

Álbum de Batumi

Dia 8 de Julho: Começámos o dia com maldição vinda dos céus: após horas a chover durante a madrugada, saímos da tenda de manhã para descobri-la no meio de um rio de lama que escorria dos montes de terra à nossa volta, no estaleiro de uma estrada em construção. É no que dá por-se a montar a tenda em sítios que não lembram a ninguém.
Para compensar fazia sol e estávamos a apenas 20 metros do Mar Negro! Ainda estou para perceber por que razão todos os turcos que encontrámos nesta zona norte da Turquia nos falam maravilhas (mentira, antes hiper-capitalismo de dar vómitos) da cidade balnear de Batumi na Geórgia, quando tem milhares de quilómetros do MESMO Mar Negro em frente de casa. Bastaria fazer como os geórgios: trazer camiões carregados de seixos até à costa e criar praias no norte da Turquia. Ou melhor, fazer como os portugueses e trazer camiões de areia! Mas não, desde Trabzon até esta vila de Arhavi o melhor que vimos foram (em Arhavi) uns blocos de pedras espalhados na costa. Melhor que nada, metemos a tenda a secar sobre as pedras e fomos tomar banho no Mar Negro. Aliás, primeiro construi uma mini-piscina em pedra, só depois pegámos em sabão para desencascar os corpos colados de suor e cobertos por camadas de poluição urbana!
Depois do banho tomada e com a tenda limpa, refizemos as malas e começámos a boleia na estrada por detrás de nós, mesmo em frente a um túnel. Sim, sem dúvida que não é o melhor sítio para fazer boleia, sem espaço nenhum para parar um carro, mas tudo bem, minutos depois apanhámos boleia para a fronteira turco-geórgia.
A fronteira foi atravessada a pé, nas calmas. Antes do controlo de passaportes aproveitámos para gastar as últimas liras turcas e aprender as primeiras palavras em geórgio numa loja de um muito amável casal de geórgios.
Do outro lado da fronteira fomos dar com o esperado choque cultural: a poucos metros da fronteira, do lado turco, uma mesquita e rochas na costa; do lado geórgio, uma igreja e uma praia de seixos com mulheres de biquini a curtir a vida… tão simples! Estivemos quase para fazer uma paragem para banhos ali ao lado da fronteira, em Sarpi, ainda mais com praia a sério, mas não, tínhamos de avançar pois faltavam ainda centenas de quilómetros para chegar a Tbilisi onde iríamos encontrar Diogo (um amigo que se junta à viagem “Rota da Seda” durante 20 dias). Decidimos portanto recomeçar a boleia, e fizemos bem, minutos depois um casal de geórgios alucinados deu-nos boleia. O lado bom da boleia foi podermos comversar dado que os 2 falavam turco, o lado mal foi quase morrer de ataque cardíaco com a velocidade e condução arriscada do condutor. Em tom de brincadeira disse-nos que era o Shumacher da Geórgia, “não tenham medo, está tudo controlado” repetia ele! Sim, até ao momento em que um Fórmula 1 avaria e lado dentro morre um Ayrton Senna… enfim…
O casal geórgio levou-nos até ao centro de Batumi, ou pelos menos assim disseram. E também disseram que estávamos ao lado da praia, ahh, a famosa praia! Crentes pusémo-nos a caminhar em direcção ao mar, numa caminhada infernal que nunca mais acabava. Pior, quando lá chegámos, percebemos que também não estávamos na zona central, faltavam ainda quilómetros para lá chegar. Uma vez mais, cansados, com fome e sob um sol tórrido andámos de malas às costas até por fim encontrar cafés e lojas! Ah, que alívio!
Não tivemos nem quisémos ter muito tempo para analisar Batumi, mas de qualquer modo não nos restam dúvidas que Batumi é um lugar horrível, artificial, feito para os novos-ricos milionários conspurcados, tão comuns na Europa de Leste e Caúcaso. Por todo o lado encontrámos hotéis, restaurantes e bares hiper caros e hiper chiques praticando preços impossíveis para a classe média europeia (muito menos a geórgia), cheios de gente bem vestida de nariz para o ar, carros topo de gama, por aí fora. Quanto a bares normais, com condições standard e preços correspondentes, não nada! Uma cidade tão grande, com tanta gente, e não há lugar com preços acessíveis junto à costa. Até na minha vila de Ribamar se encontram mais! Ainda assim, fugimos um pouco do orçamento e comprámos uma cerveja fresca e um néctar de pêssego no bar menos chique que podemos encontrar.
Do centro caminhámos ainda mais 2 quilómetros até à estação de comboio, para uma vez lá chegados descobrir que estava fechada. Pelo caminho passámos pelo porto de Batumi onde estava ancorado um enorme navio de guerra da Marinha Terrorista Francesa! No nosso russo rudimentar conseguimos conversar com um senhor que se ofereceu para nos ajudar, junto à estação abandonada, que nos explicou como chegar de mini-bus à estação de comboios nova que fica a 5 km da cidade (em Makhinjauri). Não haja dúvidas, não se pode fazer caso das informações do googlemaps, senão acabasse por ir parar a estações erradas que já nem sequer existem!

Para nosso desgosto o próximo comboio para Kutaisi só partiria na manhã seguinte. Kutaisi é uma das cidades mais interessantes de visitar na Geórgia e nós tínhamos planeado visitá-la no dia 9, partindo ao fim da tarde desse dia rumo a Tbilisi. Se apanhássemos o comboio para Kutaisi no dia seguinte seria muito difícil combinar as longas horas de comboio nos trajectos Batumi-Kutaisi e Kutaisi-Tbilisi com uma visita a Kutaisi pelo meio. Desistimos do plano e pedimos um bilhete nocturno para Tbilisi, de 8 para 9. Assim poderíamos visitar um pouco mais de Batumi antes de partir directo à capital, aproveitando para dormir a primeira noite da viagem a bordo de um comboio. Também não, os bilhetes estavam todos esgotados. Tivemos de aceitar a única opção possível, um comboio para Tbilisi uma hora mais tarde.

Do mal o menos, aproveitei a viagem de comboio para escrever no conforto dos sofás e mesas disponíveis. Mau mesmo foi chegar tão tarde a uma metrópole, às 23h30. Quando chegámos tentámos implementar o único plano de emergência de que dispúnhamos: montar a tenda num parque que sabíamos (de acordo com o googlemaps) encontrar-se um pouco a norte da estação de comboio. Como podem imaginar, no caos urbano quase não iluminado de um país desconhecido à meia-noite, não é muito fácil encontrar parques! E pois claro, não encontrámos, mas demos com um outro bem mais pequeno que teve de servir. À meia-noite e meia da noite montámos a tenda por detrás de uns escorregas para crianças, silenciosamente, de forma a não despertar a atenção dos jovens que despejavam garrafões de cerveja ali mesmo ao lado…

Álbum de Tbilisi

Dia 9 de Julho: Apesar do barulho dos carros rodando em alta velocidade na estrada ao lado do parque, a noite até foi bem passada, dormimos bem com ajuda de papel nos ouvidos e acordámos bem-dispostos. Sim, bem dispostos apesar das marotas das crianças que vieram espreitar por debaixo da cobertura da tenda e chamar por nós. Para nosso descanso havia avós e pais tomando conta delas que não as deixaram nos importunar muito. Com toda a calma sentámo-nos num banco junto à tenda e comemos uma sopa preparada no nosso mini-fogão, sob os olhares atónitos (ainda que simpáticos) das gentes da cidade.

Depois de tudo arrumado voltámos à estação de comboios onde fomos com muita dificuldade apanhar um autocarro para o centro de Tbilisi. Ninguém nos entendia e nós não tínhamos a mínima ideia se estávamos no autocarro certo nem em que estação sair. Tudo bem, saímos bem perto da cidade velha, para nossa alegria, e começámos de imediato à conversa com um muito velho velhinho que vendia livros mas antigos que ele e que falava um francês perfeito pese embora apenas tenha aprendido esse idioma na escola (soviética) há muitas dezenas de anos atrás! Espantoso só para quem desconhece as virtudes do sistema de ensino da antiga URSS. Além da interessante conversa, explicou-nos ainda o caminho para o centro do centro!

Como tínhamos malas (pesadas), voltámos à táctica de ficar um num café a tomar conta delas enquanto o outro passeava no centro histórico, trocando de papéis ao fim de um tempo. À primeira impressão Tiblisi, na sua caótica mistura de muito antigo e ultra-moderno é muito interessante. Vale a pena por cá passar! Nós ainda cá voltaremos daqui a uns dias…

A meio da tarde fomos para o aeroporto esperar por Diogo que chegaria à noite. Como tempo era coisa que não faltava, Claire voltou a apanhar um autocarro até uma zona urbana onde foi comprar comida para o resto do dia. Eu fiquei no aeroporto com as malas. Horas depois chegou finalmente Diogo para se juntar durante 20 dias à viagem Rota da Seda!

Luís Garcia

 

Carnet de voyage de Claire #35

9 Juillet 2014

SILK ROAD TRIP #25 – Quest for Iranian visa

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ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Em busca do visto iraniano

06/07.06.2014 – 32º e 33º dias de viagem

No dia 6, com muito esforço conseguimos nos levantar cedo e sair às 9 hora da manhã, como planeado. Tínhamos pela frente 600 km de boleia para fazer num dia, de Doğubeyazıt a Trabzon, de forma a poder tratar do visto para o Irão no dia seguinte de manhã (2ª-feira). Com 2 mini-boleias saímos da cidade, parados na estrada principal rumo ao ocidente turco. Tínhamos decidido não pedir boleias a camiões, apenas a carros, para podermos andar mais rápido,  mas não deu para resistir. O conduto de um camião ao qual não pedimos boleia fez-nos sinais de luzes, apitou-nos e, vendo que não reagíamos, para mesmo a viatura e chamou-nos! Queria mesmo nos dar boleia o raio do homem!

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Ufuk, o Camionista-Pensador turco

Chamava-se Ufuk (“horizonte” em turco, que fica bem a um condutor de camiões que passa o dia a olhar para ele), inteligente, irreverente, interessado em política… mais, um espírito livre que sonha refugiar-se isolado num monte longe deste caos de escravatura moderna, crises, políticos mafiosos e ditaduras económicas. Apesar do nosso fraco turco, deu para fazer perceber uns aos outros que tínhamos muitas ideias e convicções em comum, coisa rara nesta Turquia de gente boa hiper-lobotimizada pelos media, ao ponto de nos convidar para fugirmos os 3 um dia para um monte isolado, com casa, jardim e animais de pasto (Eu Quero uma casa no campo, Elis Regina), auto-suficientes e livres da “máquina”… eu respondi que sim, de preferência numa ilha isolada da Indonésia… Heheh 🙂 Ufuk foi o primeiro turco que encontrei a falar abertamente mal do senhor Erdoğan (primeiro-ministro turco), chamando-lhe inclusive de “big dictator”! Grande Ufuk, ao contrário da esmagadora maioria turca, crítica o apoio turco ao terrorismo na Síria, sabe e admite que o problema curdo foi começado pelos turcos a mando dos EUA, tem ódio e raiva aos EUA (que apelida de Satã), mete-lhe nojo que Israel possa matar 8 civis turcos sem sofrer represálias da Turquia, e por aí fora. Ufuk é um homem “sem papas na língua” num país em que quase toda a gente segue as lengalengas do governo e da imprensa. Uma raridade portanto!

Houve muita conversa pelo caminho mas também ao livre, mais de uma hora num banco de um restaurante fechado de uma estação de serviço a beber sumo (oferecido por Ufuk), e quase outra hora noutro restaurante aberto onde Ufuk nos pagou almoço e chás! É verdade que com o ritmo lento e as paragens, passámos uma boa parte do dia com ele, em vez de avançar. Ainda assim, fizemos metade do percurso de uma só vez e ainda tínhamos umas horas de sol para chegar a Trabzon.

Na saída da auto-estrada para Yoncalik, onde nos deixou, tentámos boleia pela rota indicada uns dias antes no googlemaps. Disparate! Andámos até Yoncalik de camião para depois ficarmos parados no meio do nada. Parados porque ninguém parava para nos levar, e se abrandavam era para gozar não para ajudar (que raio de buraco negro da boleia esta zona)! No meio do nada porque de facto por ali não iríamos a lado nenhum. Quem confirmou a nossa suspeita foi um senhor que ia a Yoncalik para um tarefa de 1 minuto e voltar para trás, e que assim deu-nos boleia de regresso à estrada principal.

Voltámos à rota certa mas eram já 18h30 e estávamos super desiludidos, receosos de não chegar a Trabzon no mesmo dia. Felizmente um camião parou para nos avançar uns quilómetros até Askale, deixando-nos à entrada da estrada certa para Trabzon. Faltava o resto, 223 km, e começava a ser de facto tarde para realizar esta distância durante o dia… mas não, mais um milagre, quando o desespero começava a reinar, um camião de um curdo de Van com destino a TRABZON parou para nos dar boleia! Ah, que sorte!

Passámos a viagem a ouvir música curda, descontraídos, observando as belas montanhas da região. Que viagem tranquila. A meio do percurso, como manda a tradição, parámos num bar a 2500 metros de altitude, onde nos pagou uns chás. Enquanto bebíamos, os 4 locais eufóricos não paravam de os fazer perguntas. Pareciam saber mais de futebol português que eu, um adorava o Rui Costa, outro o Tiago (do A. Madrid). E por falar de futebol, foi a segunda vez que falei com turcos que conheciam, além do Benfica e Porto, algumas equipas médias como o S. Braga ou o Guimarães, sem no entanto reconhecerem o nome Sporting C. P.! A sério! Hehe, sinais do tempo…

À noite, em Trabzon, mais um filme absurdo típico de camionistas turcos: no início da viagem convidou-nos para ficarmos na cama extra do camião, e até se ofereceu para pagar-nos um quarto de hotel (claro que recusámos, a cama do camião chegaria bem). Chegados a Trabzon pergunta-nos: “Então e agora, onde é que vão ficar hoje?” Ahhh, e já não se lembrava de ter proposto a cama extra! E além do mais foi dizer a outros 2 colegas no parque de estacionamento que “ali estavam 2 turistas meio turistas meios perdidos”! Ah, discrição acima de tudo, não haja dúvida. Sem stress pegámos nas malas e afastámo-nos um meio quilómetro até encontrar um pequeno parque com árvores e erva, onde montámos a tenda e passámos uma noite tranquila no meio do caos urbano e podre de Trabzon. Difícil de acreditar mas sim, foi uma noite tranquila.

Dia 7 acordámos com o calor sufocante e com o ruído dos milhares de carros passando na via rápida 5 metros ao lado. Aproveitámos haver umas oficinas de carros mesmo por detrás do parque para usar a casa de banho de uma delas, desmontámos a tenda e pusémo-nos a caminho do centro de Trabzon. Para não variar, cheios de calor, suados, sob um tórrido sol e envoltos por um sufocante ar húmido e poluído. Fizemos meio caminho a pé em direcção à embaixada do Irão, a maior parte a subir, até que uma alma caridosa parou e nos levou até à porta principal da embaixada! Que luxo!

À porta da embaixada fomos encontrar uma fila de espera de viajantes do Japão, França e Polónia. Esperámos pacientemente a nossa vez até sermos atendidos por gente rude e bruta que mal sabia falar inglês. Ainda assim conseguimos nos desenrascar, preenchemos a papelada, entregámos os passaportes e partimos com a informação contraditória de que poderíamos vir levantar os passaportes com os vistos às 4 e meia da tarde! Bizarro, muito bizarro, uma vez que o horário de atendimento da tarde era das 14h às 16h30. Insistimos imenso, perguntámos se não poderíamos vir logo às 14h, na reabertura, mas não, obtivemos sempre a mesma resposta: 16h30 da tarde! Decidimos voltar por voltas das 16 horas, para não correr o risco de perder um dia em mal-entendidos. Antes de irmos embora, Claire teve de ir a um fotógrafo tirar novas fotos com lenço na cabeça, sem lenço “não dá para pôr no visto iraniano”! Enfim.

Com 4 horas e meia para gastar, fomos visitar o centro de Trabzon e almoçar no sítio mais em conta que encontrámos. Quando nos fartámos, voltámos ao parque mesmo em frente à embaixada, onde queimámos horas à espera dos vistos. Às 16h15 entrámos de novo na embaixada, onde nos esperava uma grande surpresa. O visto não era para pagar em espécie, mas sim numa conta bancária num banco específico turco no centro de Trabzon. O problema era que faltavam 13 minutos para a embaixada fechar, a distância para a rua dos bancos era grande, as ruas estavam apinhadas de gente andando em slow-motion e, sobretudo, as inclinações do terreno em Trabzon são elevadíssimas. Para piorar, não quiseram ficar com as nossas malas na embaixada. Felizmente encontrámos um polícia turco junto à embaixada que se encarregou de tomar conta delas! Ah, corremos feitos loucos atropelando gente e tropeçando em todo o lado, fazendo parar carros, etc… até que por fim demos com o banco. Passámos à frente de toda a gente e explicámos a situação a uma jovem muito simpática que tratou da transferência em menos de 2 minutos. Depois foi correr de volta a embaixada, subir inclinações de quase 45º em sprint e sim, às 14h29 estava dentro da embaixada entregando o recibo. Já nem queria saber do passaporte, apenas queria um banco para me sentar. As pernas tremiam e o corpo escorriam rios de suor. Por fim tínhamos os vistos para o Irão! Ah, que alegria… Um minuto depois saiu todo o pessoal da embaixada nos seus carrões de vidros fumados.

Afinal poderíamos ter levantado os passaportes às 14h e partir muito mais cedo para a Geórgia. Graças à estupidez do pessoal da embaixada, eram já 16h30 e nós tremíamos de cansaço no centro da enorme cidade de Trabzon, longe da saída onde tínhamos de ir procurar boleia. Que remédio senão caminhar lentamente até lá!

A primeira boleia foi de 3 jovens muito divertidos que nos avançaram alguns quilómetros até Yomra. A segunda foi a de um simpático mas tresloucado condutor de camiões que se pôs ao despique a alta velocidade com outros 2 camiões dentro de túneis apertados! Convém acrescentar que os 3 camiões transportavam combustível e que o nosso condutor fumava cigarros atrás de cigarros e mandava-os fora pela janela! Que terror! Bom, pelo menos fizemos metade do caminho, até à cidade de Rise, terra natal do trafulha do primeiro-ministro turco Erdogan. De rir, além da universidade de Rise ter o nome do dito cujo, fomos encontrar centenas de retratos de Erdogan espalhados por toda a cidade! Depois venham me falar dos retratos e estátuas de Saddam Hussein, sim…

Antes de recomeçarmos a boleia em Rise, fomos a uma loja comprar pão e fruta. Como o dono era muito simpático, pedimos para lavar a uva e encher a nossa garrafa de água. Detalhe interessante: quando lhe dissemos que éramos os 2 portugueses, o senhor disse que não acreditava. Para ele Claire tinha cara e pele de portuguesa enquanto que eu não! Nem de propósito o contrário é verdade, eu português e ela francesa. A explicação é simples, para ele todos os europeus são branquinhos e a minha barba gigante só pode ser de paquistanês ou algo parecido! Ahahahah!

A última boleia do dia foi de 3 jovens malucos e manifestamente pedrados que nos levaram até Arhavi (já muito perto da fronteira com a Geórgia), onde jantámos tranquilamente no parque da cidade e montámos a tenda não muito longe, no meios das obras de uma nova estrada…

Luís Garcia

SILK ROAD TRIP #24 – Last days in Doğubeyazıt

turkey

ENGLISH: I will add the English translation as soon as possible. Sorry for making you wait!

PORTUGUÊS:

Últimos dias em Doğubeyazıt

02-05.06.2014 – 28º, 29º, 30º e 31º dias de viagem

Era suposto partirmos no dia 3 de Julho para Trabzon, cidade na costa turca do Mar Negro, mas a partida súbita em trabalho (para o Irão) do nosso anfitrião Mehmet trocou-nos as voltas. Com a ajuda e contactos de Mehmet, tínhamos a certeza de obter o visto para o Irão (em Trabzon) no próprio dia. Sem ele, algo poderia correr mal, de forma que ficámos em vão à sua espera mais uns dias.
Foram dias calmos, com poucas saídas e muito tempo a escrever no escritório de Mehmet. Ainda assim, em cada um dos 4 dias aconteceram situações divertidas e/ou absurdas sempre que saímos à rua e até mesmo sem sair. Fica aqui um resumo dessas últimas peripécias em Doğubeyazıt.

Dia 2 de Julho:

A manhã foi passada exclusivamente a lavar e limpar o apartamento/agência de Mehmet, onde muitos viajantes, amigos e conhecidos de Mehmet vêm dormir, comer, beber chá, usar internet ou tomar banho. Tudo bem, são muito bem vindos, o problema é que ninguém se dá ao trabalho de manter a casa limpa. Chegou a um ponto em que as paredes da cozinha e casa de banho passaram de brancas a castanhas escuras, viscosas e colantes. Com tempo livre para gastar e de novo com água na cisterna, fizemos a casa voltar a brilhar e cheirar bem!
À tarde saímos para imprimir umas fotos. Como estamos na Turquia chá nunca falta, de forma que tivemos que aceitar beber um chá cada enquanto se imprimiam as folhas. Depois pedimos emprestada uma tesoura para recortar as fotos e enquanto o fizemos bebemos ainda um café cada, também de graça. Também deu para rir, quando um dos muitos curdos dentro da livraria apontou para a bandeira curda na nossa mala e perguntou-nos se era a bandeira do Brasil!?! Ah, coitado, não conseguiu escapar ao gozo do resto dos curdos presentes! :p
De volta a casa para montar o quadro (para oferecer a Mehmet) com as fotografias imprimidas, fomos encontrar Mahmud à nossa espera na sala principal. Coincidência, estávamos a planear telefonar-lhe para saber se podia nos emprestar o jipe e ei-lo à nossa espera. Mas não, o seu irmão levou o jipe para ir a outra cidade, não vamos ter jipe desta vez. Azar.
À noite fomos passear com o nosso amigo Armağan, que nos comprou doces pelo caminho, até à zona do costume onde nos enchemos de chás todas as noites. Desta vez houve um extra, aprender a jogar tavla, o jogo de tabuleiro mais jogado na Turquia. A caminho da casa da família de Armağan encontrámos um amigo seu: mais doces e figos secos! Na casa da família de Armagan, com a sua eufórica mãe (Fatma) e a sua querida irmã (Derya), passámos um belo serão a rir, conversar e comer! Que sensação de estar em casa entre família! 🙂

Dia 3 de Julho:

O dia mais calmo da viagem. Manhã a dormir, tarde a escrever, noite convívio com a nossa família adoptiva em sua casa: Armagan, a sua mãe Fatma e a sua irmã Derya. Quanto ao Pai, Mehmet Arik, continua no Irão mais uns dias ganhando a vida como sabe (organização de escursões turísticas).

Dia 4 de Julho:

Depois de almoço, aborrecidos de estar em casa, pedimos 2 bicicletas emprestadas aos suecos (que ainda continuam a dormir no quarto de visitas da agência) e fomos desbravar terreno em direcção ao monte Ararat, sem plano nem rota programada, apenas com a omnipresente vontade de explorar lugares desconhecidos e encontrar outras gentes…
Assim que saímos de Doğubeyazıt, deixámos a estrada principal e seguimos a direito com as bicicletas, atravessando campos de variadas cores e formas, como um dinâmico caleidoscópio que nos obriga a sair constantemente da bicicleta para tirar “só mais uma foto”… e passa-se bem um dia assim, sobretudo quando se tem o monte Ararat pela frente e se está numa planície rodeada a 360º por uma imponente cadeia de montanhosa.

Umas horas depois de sair de casa, e após ter vistos rebanhos, encontrado gente, descansado em cima de fardos de palha, e por aí fora, estávamos por fim a uns metros da aldeia que avistáramos ao longe, no sopé do Ararat. Tão perto e tão longe, uns 15 ou 20 metros de pântano entre nós e a aldeia de Demir Tepe obrigou-nos a sair das bicicletas sem saber o que fazer. Felizmente encontrámos uns camponeses perto e fomos pedir ajuda. Uma jovem muito simpática que se preparava para voltar para casa chamou-nos e aconselhou-nos a seguir os seus passos calculados por entre o pântano. Para não estragar as botas, prendemo-las às bicicletas e atravessámos o pântano descalços. Do outro lado do pântano fomos encontrar a casa desta sorridente jovem e a sua acolhedora família que nos deu água para lavar as pernas e nos encheu as garrafas com água gelada que bem precisávamos! Como de costume, a mãe apareceu com chá e lá ficámos quase até ao por-do-sol na “treta” com gente curiosa como nós, com muita vontade de ouvir e perguntar, de descobrir as diferenças e semelhanças que separaram o seu “mundo” do “mundo” deste dois maluquinhos que atravessam pântanos de bicicleta… ah, que tarde linda passada em frente ao monte Ararat.
Ao por-do-sol fomos finalmente dar uma volta de bicicleta pela aldeia de Demir Tepe, para depois nos metermos à estrada em ritmo acelerado receosos de ter de andar de bicicleta à noite numa zona sem iluminação e com tanto “piloto de formula 1”! Mas não, não chegámos a por as rodas das bicicletas no asfalto da estrada principal. Quando nos faltava apenas 200 metros de terra batida (e ainda 5km para Doğubeyazıt) uma carrinha parou e dela saiu um senhor com vontade de ajudar. Meteu as bicicletas dentro da carrinha e prometeu nos levar a Doğubeyazıt. 1 km à frente parou numa fábrica de cimento que nos garantiu ser sua e convidou-nos para jantar na cantina onde comem os seus empregados! Ah, que banquete, sobretudo pela qualidade da comida! Findo o jantar, voltámos à carrinha e o gentil senhor foi nos deixar em frente à porta da agência de Mehmet, ou seja, à porta de casa…. que luxo!
À noite, fomos ao sítio do costume para conversas e chás… 🙂

Dia 5 de Julho:

O grande momento da manhã foi descobrir que havia um camião dos bombeiros estacionado num parque perto da agência a distribuir gratuitamente água. Como já não havia uma gota de água na nossa cisterna, nem sequer nos garrafões, andámos para trás e para a frente com garrafões de 20 e de 5 litros, com a ajuda de 2 miúdos que vieram para ganhar uns trocos extra. Quando já não nos podíamos mexer, fomos chamar os suecos (os tais que residem há semanas na agência para nos ajudar!

Durante o resto do dia passei um bocado no escritório, saindo com Claire para ir jogar à bola junto a uma vintena de miúdos endiabrados, na praça imunda e fétida por detrás do edifício da agência. À noite, para a despedida, voltámos ao sítio do costume para mais chás e conversas. Ah, é verdade, Claire voltou a receber umas prendas “meio maradas” do pessoal dos chás… mundo louco, hehe!

Luís Garcia